Vovó
- Filho, hoje a gente vai visitar a vovó, tá bom?
- Pô, mãe, de novo? Eu fui lá anteontem!
- Marquinhos, a vovó não tá bem de saúde, a gente precisa ir lá dar um ânimo pra ela.
- Saco.
- O que você falou?
- Ahn, nada, sapo. Tem um ali, ó.
- Não tou vendo nada.
- Ah, ele pulou pro mato de novo.
- Tá bom, querido, agora se comporta, hein. Não fica contradizendo a vovó.
- Tá bem, tá bem...
SLAM!!
- Tá achando que isso aqui é geladeira, Marquinhos? É um carro!
- Não sei qual geladeira você bate a porta assim. Eu só bato porta de carro desse jeito, mãe.
- Ai, minha paciência... tá, filho, vai, vamos entrar logo que a vó está esperando.
- Oi vó, tudo bom com a senhora?
- Ah, Marquinhos, que gracinha, veio ver a velha, é?
- É.
- Não fala desse jeito com sua avó, menino. Responde direito!
- É, vó, viemos ver a senhora.
- Que gracinha... entra, vem, vamos tomar um cházinho e comer uns biscoitos de nata.
- Psst, mãe, a vó ainda faz biscoito de nata? Ela não tava proibida de mexer no fogão?
- Faz não, mas se ela oferecer algo, finge que é. O médico falou que ela pira de vez em quando nessas coisas do passado.
- Toma um biscoitinho, toma, menino. É de nata, seu favorito, Marquinhos.
- Eu odeio esse biscoito de nata... ah, claro, vó. Delícia.
- Esse papagaio tá cada vez mais esperto, né, filha? Fala cada coisa!
- Papagaio??
- Ahn, é, claro, mãe. Uma esperteza sem igual.
- Papagaio???
- Shhh...
- Mãe, papagaio??? Eu não sou um papagaio!
- Quando eu era criança a gente tinha um papagaio chamado Marquinhos. Ela deve estar te confundindo com ele.
- Mãe!! Você me deu nome de papagaio???
- Ai, Marquinhos, é uma longa história... seu pai queria Marcos de qualquer jeito, eu expliquei pra ele, mas enfim... perdi no par ou ímpar. Vai, só finge que é um papagaio, senão sua avó surta.
- Você escolheu meu nome no par ou ímpar???
- Ah, filho, é bobagem, é só um nome...
- Como era pra eu chamar se você tivesse ganhado?
- Aderbal.
- Dá o pezinho, dá, louro! Olha, eu tenho um biscoitinho de nata pra você!
- Mãe...
- Vai, filho...
- Toma o pezinho... ahn, currupaco.
- Que mimo! Uma belezura de papagaio! Minha filha, já te contei que quando eu e seu pai nos casamos, tivemos uma briga danada pra escolher seu nome?
- É mesmo, mãe? Que legal. Eu adoro Berenice. Acho tão diferente.
- Bonito, né?
- Sem dúvida.
- Currupaco.
- Quieto, Marquinhos. Tá muito respondão!
- Hi hi hi hi!
- Eu perdi no pôquer, então quem escolheu seu nome foi o Manuel, do açougue.
- Meu nome foi escolhido pelo cara do açougue, mãe???
- Foi, querida, não é hilário???
- Ha ha ha ha ha! Quer dizer, currupaaaaco. Quá, quá, quá, quá!!
- Cala a boca, Marquinhos.
- Currupaco, paco, paco, paco!
- Toma um biscoitinho, Marquinhos! Fala uns palavrões pra mamãe, fala!
- Marquinhos, não.
- Mãe, ela que tá mandando. Não é pra contrariar, né?
- Fala, louro!
- Porcaria! Saco!
- Pssst, Marcos Aurélio!
- Ai, que beleza. Seu pai só ensina besteira pra ele, filha!
- Puta merda, caralho, porra!!
- Hahahaha! Que boca suja esse bichinho!
- É, mãe...
- Se fosse filho a gente já tinha lavado a boca com água e sabão.
- Pode apostar. Se fosse meu filho, já tinha levado surra...
- Currupaco. Sou um papagaio.
- É, sem dúvida que é um papagaio...
- Currupaco.
- Fica quieto, Marquinhos.
- Deixa o bichinho, filha. Vai, querido, fala mais palavras.
- Tou com sede, currupaco.
- Quer uma aguinha, lindo?
- Quero guaraná, currupaco.
- Olha que exigente! Filha, vai pegar guaraná pra ele, vai.
- Mãe, papagaio não toma guaraná.
- O Marquinhos é especial, Berê!
- Tá bom, tá bom... tou indo. Você me paga em casa, moleque...
- Currupaco, currupaco...
30.6.03
18.6.03
A Profecia
- Há quantas horas a gente está aqui?
- Putz, não sei. Umas três?
- Coisa assim, deve ser. Vamos embora, vai.
- Calma, só mais um pouquinho e alguém aparece.
- Aparece nada, ô idiota dos infernos, a gente tá aqui nessa escuridão e nada de passar gente!
- Te juro que passa. E aí a profecia vai se concretizar.
- Você tá falando desse raio de profecia há duas semanas e não me conta o que é.
- Quando for o momento, você saberá.
- Ai...
- Olha, vem gente aí!
- Shhh...
- Alou, tem alguém aqui? Aaaarrrgh!
- Quem é você?
- E-e-e-e-u... quem são vocês??? Por que pularam em mim?
- É parte da profecia, moço, depois a gente explica. Quem é você?
- Eu sou o Genésio. Trabalho ali no posto, pode perguntar. O que vocês querem de mim?
- Diga a palavra mágica, Genésio! Vai, fala!
- Quê???
- Vai, você tem que concretizar a profecia! Você é o enviado!
- Opa, pera lá, sou muito macho! Tenho namorada! O que dizem aí na cidade é só fuxico!
- Enviado, seu surdo. Um mensageiro do Divino! Vai, diz a palavra mágica!
- Qual é a porra da palavra mágica?
- E eu que sei, Zico, qual é a palavra mágica?
- E eu sei lá? Ele é o enviado, ele que devia saber!
- Você faz o cara parar, do nada, nessa escuridão, e não sabe nem o que ele tem que fazer? Pô, Zico, que vacilo!
- Mas, você não entende, é a profecia! Ele é o mensageiro!
- Bela porcaria de mensageiro você foi me arrumar. Nem sabe a mensagem!
- Ahn, dá pra você largar da minha camisa, cidadão? Eu tenho família pra cuidar e já tá tarde pra caramba.
- Ah, putz, mal aí. Vai tranqüilo, foi um engano, amigo. Pensamos que você era o enviado.
- Foi nada não, acontece.
...
- Nossa, o cara corre, hein?
- E não era o tal enviado, sua anta! E aí, ele vai passar por aqui ou não?
- Olha, o esquema, segundo a carta profética que eu recebi, era que o enviado ia passar aqui até a meia-noite, que é agora, e ia falar a palavra mágica.
- E daí?
- Daí a gente vai pro céu e vive num rio de leite e mel cercado das tantas mil virgens do paraíso.
- Sério? Mesmo? Pô, por que você não falou antes?
- Ah, você podia pirar no conceito, querer chamar mais alguém, sei lá.
- Legal, e só o que a gente tem que fazer é esperar o cara?
- Isso aí.
- Então cadê o dito cujo, seu mentecapto??
- Ai, calma, uma hora ele passa.
- Só espero mais uns quinze minutos.
- Tudo bem... já passou da hora do enviado mesmo.
- É, e eu já perdi a novela e a Tela Quente...
- Olha, quieto aí, tá vindo outra pessoa!
- Psst...
- Hein, quem tá aí?
- Chega aqui, rapaz! Você é o enviado?
- Que viado, que o quê! Isso é disse-que-me-disse...
- Será que é todo mundo surdo nessa cidade? Enviado, mané! Mensageiro, arauto, como queira!
- Ah tá. Sou eu mesmo.
- Ahhh, beleza, então chega aqui e conta pra gente a tal palavra mágica.
- Ô Marcos, isso é jeito de falar com o enviado do Divino? Pera.... Ó, enviado do Divino, dê-nos o prazer de sua companhia e diga-nos a palavra mágica que nos libertará deste mundo cruel.
- Vocês querem saber mesmo? Olha que o negócio é sério.
- Opa, é claro! Tem as virgens lá, não tem? E o tal rio de leite com mel?
- Tem, claro, mas também, é só isso.
- Peralá, Zico. Como assim, chegado? É só isso? E futebol?
- Tem não.
- Macarronada?
- Não.
- Lasanha?
- Nem...
- Biscoitinho de aveia com goiabada?
- Nadinha. Só leite e mel.
- Ah, Marcos, que isso, pensa meu... trocentas virgens. É bacanal todo dia. Você até esquece comida!
- Posso levar minha mãe?
- Não.
- E o Tuca, meu cachorro?
- Nem pensar. A oportunidade é por tempo limitado e só se aplica a vocês dois. É agora ou nunca.
- Pera aí, senhor enviado. Deixa eu levar um papinho a sós com o Marcos aqui.
- Mas, Zico, não tem macarronada!
- Meu, esquece essas bobagens! Imagina: tem mulher a dar com pau. E não é Dercy Gonçalves não. É tudo no nível da Luma de Oliveira, no mínimo...
- Luma de Oliveira, é? Será que tem alguma no esquema Vera Fischer? Sabe, gosto mais de mulher madura...
- Tem, claro, tem sim. Vai, deixa de onda, deixa o cara levar a gente.
- Tá, beleza. Só vou fazer mais uma perguntinha então.
- Tá, pergunta o que quiser, mas vamos logo com isso.
- Ô rapaz, só mais uma coisa: tem novela lá?
- Novela? Hahaha! Não! Não tem TV no paraíso, ô, energúmeno!
- Ah, então nada feito.
- Decisão final?
- Leva só eu então, enviado, por favor. Larga esse palerma aí!
- Nada feito, ou os dois ou nenhum.
- Porra, Marcos, vambora!
- Nananinanão.
- É a vida! Até a próxima, hein! - PUFF!!-
- MARCOS!! Você pirou, cara??? As virgens, meu! O rio de mel! As virgens!!
- Mas, Zico, o que a gente ia ficar fazendo quando elas estivessem menstruadas? Ou quando estivessem dando um tempo antes da segunda?
- Marcos, sua anta, no paraíso ninguém menstrua!
- Ah não?
- Não, seu idiota.
- Putz, mal aí.
- Há quantas horas a gente está aqui?
- Putz, não sei. Umas três?
- Coisa assim, deve ser. Vamos embora, vai.
- Calma, só mais um pouquinho e alguém aparece.
- Aparece nada, ô idiota dos infernos, a gente tá aqui nessa escuridão e nada de passar gente!
- Te juro que passa. E aí a profecia vai se concretizar.
- Você tá falando desse raio de profecia há duas semanas e não me conta o que é.
- Quando for o momento, você saberá.
- Ai...
- Olha, vem gente aí!
- Shhh...
- Alou, tem alguém aqui? Aaaarrrgh!
- Quem é você?
- E-e-e-e-u... quem são vocês??? Por que pularam em mim?
- É parte da profecia, moço, depois a gente explica. Quem é você?
- Eu sou o Genésio. Trabalho ali no posto, pode perguntar. O que vocês querem de mim?
- Diga a palavra mágica, Genésio! Vai, fala!
- Quê???
- Vai, você tem que concretizar a profecia! Você é o enviado!
- Opa, pera lá, sou muito macho! Tenho namorada! O que dizem aí na cidade é só fuxico!
- Enviado, seu surdo. Um mensageiro do Divino! Vai, diz a palavra mágica!
- Qual é a porra da palavra mágica?
- E eu que sei, Zico, qual é a palavra mágica?
- E eu sei lá? Ele é o enviado, ele que devia saber!
- Você faz o cara parar, do nada, nessa escuridão, e não sabe nem o que ele tem que fazer? Pô, Zico, que vacilo!
- Mas, você não entende, é a profecia! Ele é o mensageiro!
- Bela porcaria de mensageiro você foi me arrumar. Nem sabe a mensagem!
- Ahn, dá pra você largar da minha camisa, cidadão? Eu tenho família pra cuidar e já tá tarde pra caramba.
- Ah, putz, mal aí. Vai tranqüilo, foi um engano, amigo. Pensamos que você era o enviado.
- Foi nada não, acontece.
...
- Nossa, o cara corre, hein?
- E não era o tal enviado, sua anta! E aí, ele vai passar por aqui ou não?
- Olha, o esquema, segundo a carta profética que eu recebi, era que o enviado ia passar aqui até a meia-noite, que é agora, e ia falar a palavra mágica.
- E daí?
- Daí a gente vai pro céu e vive num rio de leite e mel cercado das tantas mil virgens do paraíso.
- Sério? Mesmo? Pô, por que você não falou antes?
- Ah, você podia pirar no conceito, querer chamar mais alguém, sei lá.
- Legal, e só o que a gente tem que fazer é esperar o cara?
- Isso aí.
- Então cadê o dito cujo, seu mentecapto??
- Ai, calma, uma hora ele passa.
- Só espero mais uns quinze minutos.
- Tudo bem... já passou da hora do enviado mesmo.
- É, e eu já perdi a novela e a Tela Quente...
- Olha, quieto aí, tá vindo outra pessoa!
- Psst...
- Hein, quem tá aí?
- Chega aqui, rapaz! Você é o enviado?
- Que viado, que o quê! Isso é disse-que-me-disse...
- Será que é todo mundo surdo nessa cidade? Enviado, mané! Mensageiro, arauto, como queira!
- Ah tá. Sou eu mesmo.
- Ahhh, beleza, então chega aqui e conta pra gente a tal palavra mágica.
- Ô Marcos, isso é jeito de falar com o enviado do Divino? Pera.... Ó, enviado do Divino, dê-nos o prazer de sua companhia e diga-nos a palavra mágica que nos libertará deste mundo cruel.
- Vocês querem saber mesmo? Olha que o negócio é sério.
- Opa, é claro! Tem as virgens lá, não tem? E o tal rio de leite com mel?
- Tem, claro, mas também, é só isso.
- Peralá, Zico. Como assim, chegado? É só isso? E futebol?
- Tem não.
- Macarronada?
- Não.
- Lasanha?
- Nem...
- Biscoitinho de aveia com goiabada?
- Nadinha. Só leite e mel.
- Ah, Marcos, que isso, pensa meu... trocentas virgens. É bacanal todo dia. Você até esquece comida!
- Posso levar minha mãe?
- Não.
- E o Tuca, meu cachorro?
- Nem pensar. A oportunidade é por tempo limitado e só se aplica a vocês dois. É agora ou nunca.
- Pera aí, senhor enviado. Deixa eu levar um papinho a sós com o Marcos aqui.
- Mas, Zico, não tem macarronada!
- Meu, esquece essas bobagens! Imagina: tem mulher a dar com pau. E não é Dercy Gonçalves não. É tudo no nível da Luma de Oliveira, no mínimo...
- Luma de Oliveira, é? Será que tem alguma no esquema Vera Fischer? Sabe, gosto mais de mulher madura...
- Tem, claro, tem sim. Vai, deixa de onda, deixa o cara levar a gente.
- Tá, beleza. Só vou fazer mais uma perguntinha então.
- Tá, pergunta o que quiser, mas vamos logo com isso.
- Ô rapaz, só mais uma coisa: tem novela lá?
- Novela? Hahaha! Não! Não tem TV no paraíso, ô, energúmeno!
- Ah, então nada feito.
- Decisão final?
- Leva só eu então, enviado, por favor. Larga esse palerma aí!
- Nada feito, ou os dois ou nenhum.
- Porra, Marcos, vambora!
- Nananinanão.
- É a vida! Até a próxima, hein! - PUFF!!-
- MARCOS!! Você pirou, cara??? As virgens, meu! O rio de mel! As virgens!!
- Mas, Zico, o que a gente ia ficar fazendo quando elas estivessem menstruadas? Ou quando estivessem dando um tempo antes da segunda?
- Marcos, sua anta, no paraíso ninguém menstrua!
- Ah não?
- Não, seu idiota.
- Putz, mal aí.
15.6.03
Joga fora no lixo
- Mãe, vou jogar tudo fora
- Ai, joga não, filho. Que desperdício...
- Mas pra que serve esse sacão de pena de ganso jogado no quarto, mãe? É uma bagunça completa.
- Ah, filho, sei lá, pode servir um dia. Sabe, de repente a gente faz um travesseiro novo. Ou então uma fantasia pra sua irmã brincar no carnaval. Nunca se sabe.
- Mãe, você tá muito frescurenta. Isso é um monte de pena velha que você guarda não sei porquê. Vai tudo pro lixo.
- Filho, não, deixa tudo isso quieto aí. Bobagem se dar ao trabalho com essas coisas. Deixa que a mamãe depois guarda isso melhor.
- Ô mãe! Que tá rolando? Deixa eu jogar fora! Eu quero dar um jeito nesse quartinho pra poder colocar minha bateria e a minha banda de surf-jazz poder ensaiar aqui!
- Você não entende, filho, essas penas, bem, podem ser úteis. Elas podem ser importantes.
- Pô, mãe, você tá me enrolando. Como assim importantes?
- É... bom, eu não queria te contar, acho que você ainda é muito novo pra saber dessas coisas, mas tudo bem.
- Mãe, do que você tá falando?
- Essas penas...
- Que tem as penas??
- Elas são do seu pai.
- Do pai? Mas o pai não morreu um pouco antes de eu nascer? E, tipo, gente não tem pena, mãe.
- É, mas seu pai era especial... eu queria esperar você ficar um pouco mais velho, mas vá lá. Seu pai era um príncipe encantado.
- Quê???????? Pirou, mãe?
- Era sim, ele se transformou em ganso por conta do feitiço de uma bruxa invejosa, quando eu fiquei grávida de você.
- Mãe, pera, como, príncipe do...
- Aí, pra se livrar do feitiço, tínhamos que depená-lo e jogar a poção mágica nele.
- O meu pai, príncipe... como...?
- Só que não deu certo. Nós esquecemos de misturar as pernas de momirrato e aí seu pai desapareceu. Só ficaram as penas.
- Você pirou, mãe, só pode ser!
- Não, filho, espera, ouve. Aí, uma bruxa boa apareceu e me disse que havia prendido a bruxa maligna que havia posto o feitiço. Só que ela não podia desfazer a poção errada. Então, ela me disse pra guardar as penas até o seu décimo-nono aniversário.
- E quando eu fizer dezenove, o que acontece?
- Não sei.
- Como não sabe?
- Quando a bruxa boa ia dizer, a outra bruxa, a má, veio atrás dela e as duas estão brigando até hoje, na galáxia de Kapor.
- Galáxia de Kapor??
- É de onde vem o pó de pirlimpimpim. Eu tenho certeza que já te contei isso...
- Ok, mãe, você pirou de vez. Kapor o caramba, você vai comigo ver um psicólogo.
- Filho, é sério, não faz assim com a mamãe. Depois a gente não consegue recuperar seu pai!
- Mãe, pô, ele morreu, cai na real!
PUFF!!!
- Ai, meus olhos, que clarão foi esse???
- Silêncio, reles criatura, você deve ouvir o mago Taki em silêncio!
- De onde você veio, cara? Mãe, quem é esse? É seu namorado?
- Filho, esse é o mago Taki. Ele que me apresentou seu pai!
- Quê????
- Quieta, criança! A bruxa Blini pediu-me que trouxesse um recado: ao completar dezenove anos, você deve cortar um caqui maduro ao meio e cobri-lo com as penas de seu finado pai. À meia-noite deste dia, o príncipe voltará.
- Oh, é um milagre! Filho, finalmente!
- Mãe, eu não sou trouxa, isso aqui é uma pegadinha do Gugu?
- Olha como fala comigo, reles humano!
- Na boa, que fantasia fajuta... ZAAAAAAP!! ARGH!!!
- Não ouse tocar o mago Taki, moleque. Você sofrerá as consequências!
- Orra, o cara é bom! Mas ok, mãe, já acabou a piada. Agora vou limpar o quartinho.
- Não toque nas penas do príncipe sagrado, moleque! Elas só devem ser manuseadas no momento correto.
- Ah, deixa de frescu... ZAAAAAAAAAAAAAAAPPP! AAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!
- ...
- É... mago Taki, ele vai ficar em animação suspensa por muito tempo?
- Só até que a magia da bruxa Blini faça efeito.
- Mas ele ainda tem 16 anos, mago.
- É a vida. Você vai ver, o tempo passa rápido.
- Puxa vida... aceita um cafezinho enquanto esperamos?
3.6.03
Esse conto é do Gabriel. Eu adorei.
-----------------------------------------------------
Apesar das remelas no meu olho a vista da janela da sala parecia extremamente convidativa. Não sei se era porque o dia estava bonito, com a luz forte do sol vindo por trás, iluminando sem ofuscar, ou se porque a janela estava aberta e eu podia ver tudo com mais detalhes... A janela não estava aberta! O vidro estava é limpo. É verdade, a Cleide veio ontem. Nem lembrava... Apesar disso, o dia estava bonito, e estranhamente eu não estava sonolento, apesar de ter acordado no horário.
No caminho para o trabalho percebi que a cidade, ou pelo menos aquela porção que diz respeito ao caminho para o trabalho, estava realmente mais limpa do que o normal. Parece até que teve um dilúvio à noite. A típica calçada paulista era novamente branca e preta ao invés de cinza claro e cinza escuro. Não havia aqueles também típicos excrementos de cachorros sempre com a marca de sapato de outrem menos afortunado. O sol não estava frio e nem escaldante e iluminava os prédios de modo que até a pintura deles parecia nova e sem as conhecidas rachaduras. As lojas ainda estavam abrindo, não havia bêbados caídos nas calçadas. Por um momento eu realmente achei que eu iria morrer. Como acontece no filmes.
Não morri. Mas cheguei até o trabalho. Acho que tecnicamente há uma diferença, mesmo que eu não consiga ver.
E lá estava eu, me entediando. Fazendo o que era pago para fazer. Olhando para o monitor -- esse sim, sujo. Checando se nenhum dos processos automáticos da madrugada tinha adquirido consciência e se recusado a trabalhar só para tirar o sorriso da minha cara. Maldito, o que copia o horóscopo do dia tinha. Tinha tirado o sorriso da minha cara.
Tudo resolvido? Vou checar. Clico no meu signo, pensando em quão imbecil é esse tipo de crendice pra mim. Quão imbecil é qualquer tipo de crendice. Bom, a data agora está certa... Ótimo dia para não fazer nada... Eu li isso direito?!
Ótimo dia para não fazer nada, apesar da cobrança e da pressão externa e da interna. Há hora para tudo e hoje é dia bom para você se lembrar do passado, quando tinha mais tempo para viver ao sabor dos eventos que outros criavam. Era isso que ele dizia na íntegra.
Apesar de eu conhecer pessoalmente o tipo que escreve isso, que manda dezenas e dezenas de previsões adiantadas nas vésperas de feriados, eu... Eu nada! Ainda acho isso uma crendice estúpida como qualquer outra. De volta ao apertar de botões.
-----------------------------------------------------
Apesar das remelas no meu olho a vista da janela da sala parecia extremamente convidativa. Não sei se era porque o dia estava bonito, com a luz forte do sol vindo por trás, iluminando sem ofuscar, ou se porque a janela estava aberta e eu podia ver tudo com mais detalhes... A janela não estava aberta! O vidro estava é limpo. É verdade, a Cleide veio ontem. Nem lembrava... Apesar disso, o dia estava bonito, e estranhamente eu não estava sonolento, apesar de ter acordado no horário.
No caminho para o trabalho percebi que a cidade, ou pelo menos aquela porção que diz respeito ao caminho para o trabalho, estava realmente mais limpa do que o normal. Parece até que teve um dilúvio à noite. A típica calçada paulista era novamente branca e preta ao invés de cinza claro e cinza escuro. Não havia aqueles também típicos excrementos de cachorros sempre com a marca de sapato de outrem menos afortunado. O sol não estava frio e nem escaldante e iluminava os prédios de modo que até a pintura deles parecia nova e sem as conhecidas rachaduras. As lojas ainda estavam abrindo, não havia bêbados caídos nas calçadas. Por um momento eu realmente achei que eu iria morrer. Como acontece no filmes.
Não morri. Mas cheguei até o trabalho. Acho que tecnicamente há uma diferença, mesmo que eu não consiga ver.
E lá estava eu, me entediando. Fazendo o que era pago para fazer. Olhando para o monitor -- esse sim, sujo. Checando se nenhum dos processos automáticos da madrugada tinha adquirido consciência e se recusado a trabalhar só para tirar o sorriso da minha cara. Maldito, o que copia o horóscopo do dia tinha. Tinha tirado o sorriso da minha cara.
Tudo resolvido? Vou checar. Clico no meu signo, pensando em quão imbecil é esse tipo de crendice pra mim. Quão imbecil é qualquer tipo de crendice. Bom, a data agora está certa... Ótimo dia para não fazer nada... Eu li isso direito?!
Ótimo dia para não fazer nada, apesar da cobrança e da pressão externa e da interna. Há hora para tudo e hoje é dia bom para você se lembrar do passado, quando tinha mais tempo para viver ao sabor dos eventos que outros criavam. Era isso que ele dizia na íntegra.
Apesar de eu conhecer pessoalmente o tipo que escreve isso, que manda dezenas e dezenas de previsões adiantadas nas vésperas de feriados, eu... Eu nada! Ainda acho isso uma crendice estúpida como qualquer outra. De volta ao apertar de botões.
2.6.03
Vou contar essa pro meu sobrinho, quando ele perguntar de onde veio!
---------------------------------------
Às compras
- Tem bebê aí?
- Tem sim, e estão em promoção. Quantos o senhor vai querer?
- Só um. Deixa ver os modelos? Ah, quero menino.
- Temos este com olhos azuis, nariz batatinha e pé chato, este outro vem com cabelos pretos, olhos castanhos e uma pinta de nascença no ombro esquerdo. Ah, também temos este que acabou de chegar: ruivo, menos de cinco xixis feitos, pernas gordinhas e cabelo ralinho.
- Vou levar o de cabelo preto. Combina mais com a decoração.
- É pra presente?
- Pode embrulhar. Põe um papel azulzinho pra a família saber que é menino.
- Claro. Sem problema.
- Tem garantia?
- Tem sim, é só o senhor preencher esse papelzinho aqui. Tem seis meses de defeito de fabricação e um ano de defeito das partes. É só ir a algum dos médicos conveniados para fazer a reparação de qualquer possível problema.
- Ah, que beleza.
- O senhor vai pagar como?
- Cartão de crédito. Pode ser parcelado?
- Pode, em até doze vezes. É Visa?
- Não, é Mastercard.
- Ah, então só até oito vezes.
- Tem aí um cartãozinho pra eu colocar junto?
- Aqui, senhor. Quer caneta?
- Não, tenho a minha, obrigado.
- Aqui está o pacote. Cuidado com a parte de cima, ela vem meio mole, mas ela endurece com o tempo.
- O manual de instruções está aqui dentro?
- Desculpe, esse modelo não vem com manual de instruções. Mas é o mesmo de qualquer modelo fabricado entre 1976 e 2002.
- Então eu pego um com a minha mãe.
- Assine aqui.
- Pronto.
- Obrigada!
- Não por isso.
- Volte sempre e tenha um bom dia!
---------------------------------------
Às compras
- Tem bebê aí?
- Tem sim, e estão em promoção. Quantos o senhor vai querer?
- Só um. Deixa ver os modelos? Ah, quero menino.
- Temos este com olhos azuis, nariz batatinha e pé chato, este outro vem com cabelos pretos, olhos castanhos e uma pinta de nascença no ombro esquerdo. Ah, também temos este que acabou de chegar: ruivo, menos de cinco xixis feitos, pernas gordinhas e cabelo ralinho.
- Vou levar o de cabelo preto. Combina mais com a decoração.
- É pra presente?
- Pode embrulhar. Põe um papel azulzinho pra a família saber que é menino.
- Claro. Sem problema.
- Tem garantia?
- Tem sim, é só o senhor preencher esse papelzinho aqui. Tem seis meses de defeito de fabricação e um ano de defeito das partes. É só ir a algum dos médicos conveniados para fazer a reparação de qualquer possível problema.
- Ah, que beleza.
- O senhor vai pagar como?
- Cartão de crédito. Pode ser parcelado?
- Pode, em até doze vezes. É Visa?
- Não, é Mastercard.
- Ah, então só até oito vezes.
- Tem aí um cartãozinho pra eu colocar junto?
- Aqui, senhor. Quer caneta?
- Não, tenho a minha, obrigado.
- Aqui está o pacote. Cuidado com a parte de cima, ela vem meio mole, mas ela endurece com o tempo.
- O manual de instruções está aqui dentro?
- Desculpe, esse modelo não vem com manual de instruções. Mas é o mesmo de qualquer modelo fabricado entre 1976 e 2002.
- Então eu pego um com a minha mãe.
- Assine aqui.
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