26.5.03

O Gato

Outro dia meu irmão chegou em casa com uma caixa de sapato. Tinha um gato dentro, ou pelo menos era o que ele dizia.
- Deixa o gato em paz. Ele é pequeno.
- E por que não mia?
- Porque não quer. Não abre a caixa.
Mas eu queria abrir a caixa. Não ia deixar barato que o moleque trazia um gato pra casa e nem me deixava ver o bichano. E, pior, um bicho que nem mia. Achei que estava morto. Ou então era peça desse desgraçado que vive dizendo que conhece o Ricky Martin, mas trazer ele aqui em casa que é bom, nada.
Aí, ele me diz que vai dar comida pro gato e sai da cozinha com um maço de salsão.
- Mas gato não come salsão, sua anta.
- Esse come. Ele é vegetariano.
- Não existe isso. Gato é gato e fim de papo.
- Azar o seu se não acredita. O gato é meu e eu sei o que é melhor pra ele.
- Sabe nada. Me deixa ver esse gato. Aposto que é uma vaca miniatura.
- Vai pro inferno. E deixa meu gato em paz.
Mas eu não aguentava de curiosidade de ver o maldito do gato. Então armei um esquema pra ver o dito cujo.
Entrei no quarto do irmão quando ele estava na escola. Ele trancava a porta, o maldito, mas eu já sabia e tinha chamado o chaveiro pra ficar de olho. Assim que meu irmão saísse, seu Juvêncio entrava. E o velho era batuta! Tava lá, escondido nas plantinhas, vendo meu irmão passar.
- Posso sair agora?
- Vem aí, seu Juvêncio. De hoje esse gato não passa.
Ele pegou os cacarecos dele e começou a trabalhar a porta. Não deu cinco minutos a coisa estava escancarada. Seu Juvêncio é gênio. Ainda botou tudo no lugar e me fez uma cópia na sua maquininha portátil. Valeu os 100 reais!
A caixa do gato tava do lado da cama, fechadinha, como no dia que veio. Não podia ter uma droga de um gato ali. Se tivesse, já estava morto há tempos.
Nem me preocupei se meu irmão ia saber que eu abri aquela joça. E qual não foi minha surpresa ao ver ali um gato daqueles eletrônicos, que faz miau eletrônico e tem olhos que brilham no escuro. Tá, gato normal também tem. Mas esse era a pilha.
Quando meu irmão chegou em casa, eu tava com o bichano na mão, agradando ele e vendo TV. Ele fez um escarcéu e quase que me arranca a mão tentando pegar o gato.
- Dá meu gato! Ninguém deixou você botar a mão nele, sua estúpida!
- Agora o gato é meu, seu mané. Fica quietinho que eu até deixo você brincar com ele. Olha como ele adora meu colo!
- Sai, devolve meu gato, sua bruxa. Ele nem te quer. Olha só: vem, chaninho, vem com o papai. Psst, psssst.
O gato saiu correndo pro colo dele. Nem olhou pra trás.
- Viu, viu? Agora fica longe do meu gato. Ele nem te quer.
Gato maldito. Juro que nunca mais compro cenouras pra ele.
A menina pegou sua câmera e se dispôs a enfrentar o mundo com ela. Mas tudo o que podia fazer era tirar fotos de placas de rua.

25.5.03

Um conto para um dia frio como hoje...

--------------------------------

É domingo

Desliga o rádio, coloca um casaco, fecha a janela e vê a chuva começar, Aninha.
Num dia frio como hoje, você pode ficar em casa e se enrolar num cobertor quentinho. É domingo.
Você sempre pode pegar uma xícara de chá quente e um pedaço de bolo e assistir aos péssimos programas que a televisão arranja pra gente. É domingo.
Deita na sua cama ao lado da sua gata amalucada e faz um carinho na barriga dela. As duas podem dormir num colchão macio, em lençóis frescos. É domingo.
Ou você pode sair de casa, casacos e tudo, para apreciar um dia lindo como hoje, mesmo que já esteja escuro e o vento congele suas orelhas. É sempre gostoso. É sempre domingo.
Sente-se num banco de praça, observe como as pessoas passam. Algumas sentem frio, outras estão com pressa. Algumas querem correr para ver mesa redonda na tevê. E outras não vão a lugar nenhum e só querem saber de sentir o frio no rosto. É domingo.
Mas e se você não tem com quem dividir esse frio? E se não há ninguém além da sua gata maluca para assistir àqueles programas horríveis do domingo?
E se tudo que você pode fazer é sentar e ver o Fantástico? Se você só pode pedir uma pizza e esperar pela segunda-feira, que chega mais cedo ou mais tarde? E se você sentir aquela sensação de inevitabilidade da chegada da nova semana, do fim de um fim-de-semana gostoso e preguiçoso? Só pode ser domingo.

24.5.03

A culpa pelos erros na codificação dos acentos era minha. Agora está tudo bem!

21.5.03

Hoje não tem conto, mas tem letra de música. Mais uma de minha lavra...

--------------------

From all these tunnells
We see the headlights
They are on
They're on to us

Let's get away
And run forever wherever we can
Run away from the loneliness of man

I hear the humming of people outside
They don't understand you and me
They think we're just crazy or wasted
We just want to be

Let's get away
And run forever wherever we can
Run away from the loneliness of man

And everything is better now
And everything is better now
And everything is better now
Now we are free
Now we are together
Free from the loneliness of man

20.5.03

E como meu editor pede, aqui vai o conto de hoje. Sei que estou atrasada com meus contos, mas vou recuperar aos poucos. Espero que ele não se zangue demais...

---------------------

Uma caixa

- Oi, quero uma caixa.
- Uma caixa de que tipo?
- Ah, não sei. Uma assim.
- Que cor?
- Ah, pode ser qualquer uma. Não, espera. Tem branco?
- Tem, claro. Tem branco, azul, bege, lilás, vermelho, rosa e preto.
- Preto? Alguém compra caixa preta?
- Algumas pessoas compram.
- Mas, pensa, pra quê serve?
- Olha, não sei. Talvez para dar presente pra homem. Embalagem de presente de homem é sempre preta.
- É, verdade. Sempre que eu ganho perfume, a caixa é preta.
- Tá vendo? Vai levar a branca então?
- Na verdade, agora estou em dúvida. Por que eu queria passar uma fita em volta da caixa. Você acha que vermelho e branco fica bem?
- É pra menina ou menino?
- É pra minha mulher...
- Ah, então fica. O branco lembra pureza e amor infinito. O vermelho lembra paixão. Combina bem.
- Nossa, você entende dessas coisas, hein?
- É, eu fiz um curso de psicologia das cores. Uma coisa maravilhosa.
- Mesmo? Que louco... e o que representa o verde?
- Ahn, bem, eu não... ah, o verde é dinheiro. Atrai fortuna.
- Mas isso já não é crendice, que nem cueca amarela no Ano Novo?
- Não, não. Faz parte da psicologia das cores. Juro.
- Ok... bem, então, você acha melhor caixinha vermelha com fita branca ou o contrário?
- Faz assim: pega a caixinha rosa e passa fita vermelha e branca, uma sobre a outra. Fica bárbaro.
- Nossa, faz anos que eu não ouço ninguém dizer "bárbaro".
- É, eu moro com minha avó e ela vive usando umas expressões engraçadas. Acho que acabei pegando.
- Eu sei como é. Eu outro dia me peguei falando "cáspita", por causa de um colega de trabalho que deve estar passando dos sessenta e trá lá lá.
- Passadinho o moço. Você faz o quê?
- Sou contador.
- E tão novinho já está casado?
- Sabe como é... eu engravidei ela e aí, foi. Casamos. Mas tudo bem. Não odeio ela. Ainda.
- Mas e o filho, já nasceu?
- Na verdade, morreu no parto. Foi uma tristeza pra toda a família.
- Puxa, que pena. Meus pêsames. Deve ser dureza.
- Nem me fale. Foi uma época horrorosa da minha vida. Posso ver a fita rosa?
- Claro. Tome. Mas e agora, vocês estão juntos, sem o filho. Por que ainda estão casados?
- Depois de todo o drama, fiquei meio que sem jeito de largar ela. E a gente se trata meio que como colega de quarto hoje. A gente divide o aluguel, racha a comida, e tal. Mas ela não cozinha pra mim, nem nada.
- Mesmo? Que coisa! Mas como não cozinha?
- È que ela também trabalha. Não ia obrigar a cozinhar. A gente tem empregada.
- Ah, sendo assim...
- Essa fita até que é legal. Mas não é meio brega um homem carregando um pacote de fita rosa na rua?
- Ah, deixa disso. Um homem assim que nem você, ninguém ia achar nada...
- Você ia achar ridículo?
- Que isso. Ia achar o máximo. Se fosse eu no lugar dela, ai, ia adorar.
- Dá umas indiretas pro seu namorado...
- Que namorado? Eu não tenho.
- Mas como não? Oras, então é por que não quer.
- Não falta vontade. Falta é mão-de-obra no mercado. É cada traste que me aparece.
- Tem muito canalha sim. Mas sempre tem os bonzinhos também.
- É? Onde? Me conta que eu não tou sabendo... Ah! Tenta com a fita lilás na caixa branca. Acho que fica delicado.
- Você tem bom gosto. Mas acho que minha mulher nem ia notar. Ela nem liga pra essas coisas de embalagem.
- Que absurdo. E você, tão atencioso, se desperdiçando assim.
- Às vezes eu penso assim, mas acho que é presunção minha.
- Que presunção que nada, viu. O que tem de mulher procurando alguém meigo assim, não tá no mapa.
- Puxa, fico mais feliz de saber que a culpa não é minha.
- Você é um homem decente, só isso.
- Você acha mesmo?
- Claro, imagina. Conto nos dedos as vezes em que vi algum homem entrar aqui preocupado assim com o presente da namorada.
- Nossa, fico lisonjeado.
- E, aí, qual fita vai levar? E a caixa?
- É, eu estava pensando... acho que nem vale a pena. Você quer sair comigo?
- Mas você tem mulher... acho errado.
- É, mas eu ia terminar com ela mesmo. Não está mais funcionando, sabe? Essa coisa de viver como amigos não é pra mim. Quero alguém que goste de mim e que eu goste. E, sei lá, senti uma conexão com você.
- Mas e o presente dela?
- Ah, toma, fica pra você.
- Brigada, sempre adorei chocolate!
- Nossa, parece até que eu adivinhei.
- Você é uma graça.
- Você é duas.
FIM

16.5.03

As Quatro se Encontram

E ouvindo aquelas vozes do passado, ela despertou do torpor do trabalho mecânico que realizava em sua mesa.
Joana deixou os papéis de lado e começou a se perguntar, em silêncio, quem estaria lá. O escritório era um lugar tão sombrio à noite... mas não se virou nem tirou os fones de ouvido. Aliás, era um espanto que ouvisse qualquer coisa acima do som de suas músicas, companhias mais constantes que as pessoas.
Continou sentada, ouvindo as vozes que falavam coisas familiares.

"É claro que Clarinha vai estar lá! Viu? Claro e Clarinha! Há há há!"
"Ah, mas se a Sílvia for, eu também quero ir"
"Vocês viram quem foi à casa de Ricardo?"

Todas aquelas conversas adolescentes se embrenhavam em sua cabeça como se fossem seus próprios pensamentos. Seriam? Joana tinha certeza que não. E as vozes não paravam. Eram suas amigas: Sílvia, Lila e Carla. Tinha certeza absoluta.
Virou-se, em sua cadeira de rodinhas e deparou-se com as três. Lila era uma loura com cara de espertinha. Sílvia, a "mãe" do grupo, tinha cabelos chanel castanho-claro, sempre perfeitamente arrumados com uma tiara. E Carla, que era quase uma irmã, tanto na aparência como na vida, trazia seus cabelos cacheados desgrenhados e mal-tratados, como costumavam ficar. Era a mais silenciosa das quatro.
Joana não entendeu o que elas faziam ali, àquela hora, mas gostou da surpresa. Sorriu com ternura para suas queridas amigas de colégio.

"Oi Jojo! Viemos te fazer companhia", disse Lila, que sempre era a mais falante. Era ela quem tentava engambelar o dono da venda enquanto as outras roubavam chicletes e doces. Quase sempre era bem sucedida.
"O que você está fazendo, Jô?", perguntou Sílvia.
"Trabalhando, o de sempre, sabe? Mas estou feliz que vocês vieram. Há quanto tempo eu espero que vocês venham me visitar! O que têm feito?"

As três puxaram cadeiras para perto de Joana e olhavam para ela com uma alegria difícil de ser expressa em palavras. Parecia que não se viam há dezenas de anos. Talvez fosse mesmo o caso.

"Carla, fala alguma coisa, vai. Tanto tempo sem ver você, moça...", Joana segurou a mão da amiga. Ela sempre fora muito tímida, desde criança. As duas cresceram juntas, desde o nascimento, separadas por dois dias e três casas.
"Ah, eu não sei o que dizer... É tão bom ver você de novo. Eu estava morrendo de saudades. Conte como você está.". A morena sorriu.

Joana tinha tanto para contar a elas. As três acompanharam-na em tudo. Desde o segundo grau, quando começaram a fazer suas festinhas com os meninos, até a vida adulta, quando todas seguiram caminhos tão diferentes. Joana se formou em administração, Lila era farmacêutica, Carla tocava na Orquestra Sinfônica de São Paulo e Sílvia era dentista. Apesar dessa "separação", elas continuaram amigas. E se falavam quase todos os dias.

"Não estou mais casada. Desde o mês passado." Essa era a maior notícia que ela tinha para as amigas. Coriolano (já nascera com nome de velho) morreu de uma complicação em uma cirurgia. Não sofreu, não soube que ia morrer. Foi em paz e sedado.

Sílvia foi a primeira a se manifestar. "Oh, querida. Puxa, sinto muito por não ter estado ao seu lado. Mas você sabe que, em coração, eu estava lá". Do alto de seu estilo clássico, Sílvia deixou cair algumas lágrimas, por tudo que a amiga tinha passado.
"Agora ele está em paz, Jojo, fico feliz de ver que você está se recuperando", disse Lila. Ela estava sentada ao lado de Joana, afagando seu cabelo curto e loiro como quem brinca com um bebê.
"Jô, você sabe que eu quis falar com você, te confortar, mas..."
"Não sei preocupe, Carlinha... eu sei."
Carla começou a chorar, convulsivamente. Joana não entendeu exatamente por que a amiga chorava, mas não pôde conter a vontade de colocar aquilo tudo para fora. Desde a morte do marido, ela não tinha tido uma chance de gritar, chorar, espernear. Não ao lado de alguém que pudesse entender. E as três a entendiam.
De repente, as quatro choravam, e se abraçavam e diziam o quanto amavam umas às outras. Mas o momento foi passando e, sempre Lila, acabou em risada, pensando na bobagem que era, mulheres adultas chorando daquele jeito.

"Ah, eu precisava tanto de vocês. Tanto." Joana ainda choramingava um pouco, tremia por ter colocado tanta coisa para fora naquele choro repetino. E no meio do escritório. Se alguém do trabalho visse aquilo, a chamaria de louca. Felizmente, todos já haviam ido embora. Elas podiam falar da infância e das bobagens usuais sem serem interrompidas.

E a noite passou num flash, contando histórias de namoros, bailes que foram uma vergonha, iniciações sexuais em carros, empregos abandonados e outros fracassos e sucessos da vida. Nenhuma vergonha, nenhum segredo muito grande (elas nunca tiveram segredos), apenas acontecimentos convertidos em lembranças divertidas.
A conversa fluía e elas só se deram conta do horário quando os primeiros raios de sol começaram a invadir o escritório pelas frestas da persiana.

"Gente, já é de manhã! Precisamos ir!", disse Sílvia, com um ar preocupado.
Joana não sorriu ao ouvir a exclamação da amiga. Não queria ficar longe delas novamente. Foram longos anos estes que as separaram. Por que tinha que ficar sozinha novamente?
Carla notou e, abraçando a amiga, confortou-a. "Agora, não precisa fazer essa cara, Jô. Você vem com a gente".
"Sim! Vamos ficar juntas! Não agüentamos de saudades de você!", Lila era sempre a mais efusiva.
"Mas como eu vou com vocês? Eu tenho que trabalhar. Não tenho férias até ano que vem. E meu cachorrinho, coitado, não pode ficar sozinho."
"Tudo isso se arranja, Jojo. O cachorrinho fica com sua filha, ela vai cuidar dele."
"E você vai querer esse emprego pra quê? Coisa chata... prefere ficar aqui digitando número a ir conosco?"
"Eu sei, esperei tanto que vocês viessem me visitar. Agora vocês estão aqui e eu fico sem saber o que fazer".
Sílvia sentou-se ao seu lado e, seu semblante mudou de alegre para grave em segundos. "Desculpe, linda, mas não é uma opção. Você tem que vir conosco."

Joana sentiu um ar gelado entrar pela janela, com as primeiras horas da manhã. Não deviam ser mais do que cinco da manhã. Daqui a pouco a faxineira iria chegar.
Eram naquelas horas que as coisas se decidiam. Era em momentos como aquele que a vida das pessoas mudava por completo. Ela sabia e sentia aquilo debaixo de sua pele, dentro de seu coração.

"Se é chegado o momento, então vou. Vamos embora."

Quase que instantaneamente o vento ficou mais forte, parecia que alguém havia aberto uma janela de supetão. Como se nada mais fosse impossível, Os cabelos de Joana voltaram ao comprimento de sua adolescência, longos e dourados, como se o próprio Sol fosse parte deles. Sua pele enrugada e ressecada voltou ao frescor que teve há tantos anos e ela sentiu seu rosto alisar-se. Talvez até algumas espinhas.
Ela olhou para suas amigas e elas já não tinham a aparência da idade. Tinham 17, 18 anos, sorrisos marotos, cabelos compridos e roupas de correr na rua. Nada de jóias douradas, nada dos pesados casacos com que chegaram naquela noite fria. Elas vestiam camisetas de personagens de desenho animado, calças de moletom e helanca, quase o uniforme da adolescência. E Joana também se vestia assim. Era, afinal, novamente jovem.
"P...p..por que isso? Por que mudamos?" Joana não sabia se gritava, se ria ou se qualquer movimento estragaria aquela magia absurda. Podia ser um sonho, afinal de contas.
"Calma, linda. É assim que somos por dentro. Crianças. Nunca deixamos de ser. Pelo menos nós quatro", disse Sílvia, com toda a calma do mundo. A calma que só alguém com todo o tempo pela frente pode ter.
"Vamos viver assim, para sempre? Nunca vamos envelhecer?"
"Envelhecer é uma coisa fisiológica. Você sempre será aquilo que escolheu ser. Você foi feliz, e continuará sendo. Nós fomos felizes, tivemos umas às outras. Nada mais justo que essa escolha continue depois."
Joana teve medo de acordar daquele sonho maravilhoso e permaneceu muda, tentando entender tudo aquilo. Ela pegou na mão de Carla, que agora tinha seus cabelos cacheados amarrados num rabo-de-cavalo, e apertou com força. A menina olhou com doçura e as quatro se deram as mãos.
"De agora em diante, nada nos separa. Somos novamente nós quatro, juntas para o que der e vier. Agora é a hora de aproveitar."
"Seremos felizes. Como já fomos. Antes de todas as dores da vida."
"Seremos felizes. Para sempre", complementou Lila, com lágrimas nos olhos. Finalmente as quatro estava juntas.

O silêncio tomou conta do escritório e o vento gelado cessou. Agora, raios de Sol aconchegantes entravam pelas persianas. A faxineira começava a abrir todas as janelas. Eram seis e meia da manhã. Em alguns minutos ela encontraria um cadáver, caído em frente a quatro cadeiras colocadas em roda. Era, com certeza, o cadáver mais feliz que alguém já vira.

6.5.03

Eu tinha de dizer a ele. Cansei, cansei, cansei. Não dava mais, pronto. É fácil pensar, né? Bem que ele podia ler meus pensamentos. Assim eu não precisava falar. Imagina uma sociedade onde todo mundo sabe ler pensamentos. Não haveria freaks, porque todos aqueles pensamentos bizarros que a gente tem no nosso próprio mundo seriam externos. E, descobrindo que todo mundo tem seu lado bizarro, ninguém poderia chamar ninguém de bizarro. Seríamos uma nação bizarra.
Enquanto não rola, eu preciso dar um jeito de fazer com que ele perceba o que está rolando, sem eu ter que falar. Mas eu sou pouco óbvia, uma única qualidade. Senão ele já saberia, teria lido na minha testa que a coisa já degringolou há muito tempo. Que eu não quero mais estar aqui e, possivelmente, ele também não quer. Aposto que não quer, porque, enfim, eu engordei, ele mudou, nós não somos as mesmas pessoas. Eu quero outras coisas. Antes era tudo tão perfeito. Tínhamos os mesmos ideais, as mesmas vontades. A gente queria comprar uma ilha, queria ficar famoso. Queríamos tanta coisa. Agora eu tenho vontade de escrever livros, ficar em casa, longe das pessoas. E ele só quer ir a festas e ficar famoso.
É difícil pra mim precisar quando foi que a gente se separou assim. Quando foi que nós começamos a pensar diferente? Acho que dá pra dizer que foi naquele dia, numa festa besta, aniversário de algum amigo dele, em que eu disse que nós estávamos diferentes. É bem capaz que a percepção do fato tenha vindo muito depois do fato em si, mas é aí que eu vou começar. Ponto.
Estávamos na festa, eu tinha tomado uma meia dúzia de cervejas. Ele já estava pra lá da dúzia. Bebia como um condenado, sempre. Umas meninas vieram conversar com ele, falar que tinham lido o artigo dele no jornal da faculdade. Ele ainda estava na faculdade naquela época. Já faz uns dois anos, acho...
Eu parecia invisível naquele momento. Me jogaram pro lado, eu fiquei sentada no sofá, falando com uma amiga minha, tão bêbada quanto eu. Elas se jogavam em cima dele. Parecia que ele era um ímã. Eu nem me importei. Fui pegar outra cerveja. Em outros tempos aquilo teria me enfurecido, mas daquela vez eu pensei: é a vida que ele quer. Então, por que não? Aquilo não era pra mim, eu sempre soube. Mas era a vida dele, era de onde ele tirava sua força toda.
Quando elas largaram, ele veio correndo, achando que eu estaria furiosa. Eu não estava. Estava tranqüila, feliz, bêbada. E não pense que eu fiquei doida de raiva durante a ressaca. Achei normal. Ele quer ser aquilo, ele tem o que é preciso para ser. Aceitei o fato e disse a ele: "nós estamos diferentes". Ele não entendeu de primeira, achou que eu tava querendo terminar, dizendo aqui. Querendo mostrar o quanto fiquei chateada por conta da festa. Mas não era nada daquilo. Ainda amava ele, mas estávamos diferentes. Não pensávamos mais igual. Algo tinha mudado.
Depois de algumas horas ele entendeu. Choramos muito e nos entendemos. Eu disse que não sabia o que seria dali pra frente, depois de me dar conta de que mudamos. Ele disse que tudo continuava igual, porque ainda nos amávamos. Eu disse que sim, claro. Mas tinha outra coisa na cabeça.
Esses dois anos, de lá até aqui, foram estranhos, se comparados com os outros que vieram antes. Cada vez mais saindo separados, fazendo programas completamente diferentes um do outro. E aceitando tudo isso como se fosse uma parte natural da relação. Talvez seja. Mas não é o tipo de relação que eu quero.
E eu continuo sem saber como vou falar que agora é pra valer. Que agora eu vou e fim de papo. Ele é um doce de pessoa. Como você diz para alguém tão doce que não quer mais tê-lo em sua vida? Acredite, é duro.
Ele está saindo do banho, tenho que reunir a coragem. Fala, vai, fala. Você consegue.
- Quer ir ao cinema hoje, querida? Podemos ver aquele filme que você tinha dito.
- Ahn, claro, querido. Claro que sim. Você é adorável. - com um sorriso, claro.
Fica para amanhã. Quem sabe.
Danette de doce-de-leite

Há três dias Mariana não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o Danette. Ela queria um Danette de qualquer jeito. De doce-de-leite. Nunca achou grande coisa do Danette de chocolate. E essas novas invenções, como o de chocolate branco e o de papaia com cassis, então, nem se fala. O de doce-de-leite era seu mimo.
Pois bem, ao mercado então, buscar o dito doce. Afinal, são três da tarde e nada há para se fazer neste sábado insosso a não ser deixar-se possuir pelo sonho de uma coisa tão trivial. Um Danette de doce-de-leite.
Botou seus tênis velhos, cinzas, mas quase pretos de tão sujos. E uma blusa da mesma cor, embora limpa. A calça de moletom já podia sair andando sozinha, de tão usada. Mariana era adepta de um estilo de vida tranqüilo e largado. Nada de jeans para ir ao mercadinho. Nada de sapatos para ir ao shopping ou ao cinema. Com ela era tudo na base do relax total. Pegou seu dinheirinho amassado, como aquele dinheiro de cobrador de perua, que recebe notas amassadas e as mantêm assim. Colocou tudo no bolso, aquele monte de notas de um e moedas pequenas, que não chegavam a cinco reais. E foi-se.
Encontrou, logo na saída, a vizinha da frente, que aguava plantas e acenava com uma luva de borracha na mão esquerda. A vida é simples, claro. Ah, se tudo se resumisse a um Danette de doce-de-leite. Mas ela tinha que escolher uma faculdade, escolher um curso, escolher um emprego, escolher onde ia morar, se ia se casar, se teria filhos, toda essa coisa. Já tinha escolhido umas cinco vezes, mas nunca chegava a uma conclusão definitiva. Na dúvida, continuava comendo seus Danettes de doce-de-leite.
Eles andavam sumindo das prateleiras, na verdade. O mercadinho só comprava o de chocolate e aquelas novidades bizarras. Nada de doce-de-leite. Ela acabava andando até o mercado maior, de rede, que ficava a umas quatro quadras. Lá sempre achava seu Danette. Subindo a rua, viu as crianças saindo da aula. Horário estranho pra isso, mas era Páscoa. Deve ter alguma coisa a ver.
Aliás, era Páscoa. Não chegou a comprar ovo para a família, nem para o pseudo-namorado. Aquele rapaz que vinha lhe buscar para o cinema dia sim, dia não. Aquele que sempre lhe ligava para desejar boa noite, quando não a via. Bom rapaz. Talvez continuasse com ele, talvez não. A vida é complicada, nesse ponto. Ela gostava dele, mas faltava um pouco mais. E afinal, só tinha dezoito anos, podia ficar com ele ou não. Sabia muito bem que ele não precisava ser "A" pessoa de sua vida. Tinha tempo...
No mercado, não encontrou seu Danette doce-de-leite, como esperava. Não pensou em falar com o gerente, pedir que comprassem mais, para ela. Não importava mesmo. Andar um pouco a mais não é martírio. Num sábado à tarde. O sol saía naquela tarde fria de abril e só iluminava. Ela via as folhas caindo no chão, das poucas árvores que restavam no centro da cidade, via as crianças chutando bola na calçada da locadora, esperando pacientemente a moça passar no meio do "campinho".
Já que não tinha pressa, comprou um pacote de figurinhas na banca. É sempre bom para enfeitar agendas, cadernos. Adorava enfeitar suas coisas. No quarto que dividia com o irmão mais velho era sempre uma briga para ver o que ia nas paredes e janelas. Acabaram fazendo uma divisão meio-a-meio, com fita crepe e tudo. Assim, cada um fazia o que bem entendia com seu lado. O dela estava cheio de bichos, figuras de desenhos animados e pôsteres de atores e atrizes. O dele, cheio de adesivos de computadores, um cartaz de Macintosh e listagens de programação que ele precisava decorar ou refazer. Era um menino estudioso e apaixonado por tecnologia. Por azar, só tirou figurinhas repetidas.
No outro mercado tinham seu Danette de doce-de-leite. Que delícia! Que maravilha! Não pensou duas vezes. Abriu o primeiro ainda no caminho de volta e ficou sorvendo o iogurte direto do potinho. Era bom. Provavelmente melhor que sexo, mas sem ter experiência no assunto, não podia ter certeza. O outro ia guardar para comer à noite. Era bastante racional nestas coisas. Nunca tinha ataques de vontades loucas. Quando queria algo, sabia dizer chega no momento em que estava satisfeita, independentemente de ter a coisa à disposição, como agora tinha um outro potinho.
Na volta, atrapalhou novamente os meninos do futebol, que eram bastante educados e sempre gritavam uns para os outros "olha a moça! pára aí!" e coisas assim. Sentiu uma vontade tremenda de jogar um pouco de bola com eles, só pela diversão, mas ela tinha 18 anos. Eles tinha quase 10.
Entrou em casa feliz e nem pensou em tudo que ainda tinha que estudar para o vestibular. Não pensou também que não ligou até agora para o tal moço que leva ao cinema, para dizer que não poderia ir hoje à festa da menina do colégio. Ela pensou firmemente em como seria sua vida daqui uns cinco anos. Ficou horas nisso, até a noite chegar.
Mariana imaginou como seria formada, com uma profissão, um emprego de verdade, não aquela coisa de trabalhar na loja de sua tia, só para ajudar. Como seria ela, já adulta, beirando os 25 anos, com responsabilidades de contas, aluguel, vontades de comprar coisas para as quais era preciso economizar, planejamentos, possibilidades de todos os tipos. Será que seria bom como era agora, só com preocupações de comprar Danette de doce-de-leite?
Ela decidiu que não queria nada daquilo para si e trabalharia com a intenção de fazer aquilo que lhe desse prazer (e, claro, não fosse cruel aos demais. Ela era muito cônscia das pessoas ao seu redor). Nada de filhos, nada de maridos e namorados sérios demais, que a obrigassem a parar tudo que queria, comprar uma casa e deixar de sair com os amigos. Nada de compromissos que não pudesse suspender em até 30 dias. Não queria nada mais do que já tinha agora. Claro, queria o dinheiro. Mas, se o dinheiro desse para seus Danettes de doce-de-leite e algumas horas tranquilas de sono, Mariana já estava satisfeita.

Locksmiths and razorblades
With words one shall not persuade
'Tis the language of thy dead and thy sick
This words are not to be spoken

Lyricists and musicists
Not once will I hear if you insist
Speak my language, will you not?
Speak my language

Come hither
Morning arrives in such a splendorous carriage
It is I who will condone you with the glory
Glory of an undying love that shall resist
Even upon this dry words of yours
This words that shall not be spoken
Shall not be spoken of

Uma garota criada num convento, fugiu de lá para se casar com um bom homem (um tanto burro, mas bom) a quem conheceu num dia qualquer.
Seus pais eram ricos fazendeiros no Mississipi e ela chegou a Chicago em 1920. Já casada, arranjou um amante, sem saber o que fazia. Quando resolveu que aquilo era errado, lutou com ele para fugir e, por fim, atirou nele, com a arma que ficava escondida em sua cômoda.
E assim, ela foi parar na cadeia.

Mariana perseguia a idéia perfeita como alguns perseguem um borboleta azul. Ela adorava pensar em como iria ganhar muito dinheiro, ou muita fama, ou muito reconhecimento científico, qualquer uma dessas coisas. O que ela queria era saber que fez algo e obteve a notoriedade, seja ela do tipo que fosse. Sua última idéia tinha sido o marca-livros perfeito. Obviamente não deu certo, pois ela continuava morando naquela kitch empoeirada na Consolação.


Quando eu me apaixonar, vai ser por você. Eu repetia aquele mantra cinquenta mil vezes, pensando naquele menino de cabelos longos e louros que sentava ali na frente. Gregor era lindo. E também era muito legal.
Eu estudo com ele desde a quinta série, mas nunca me dei conta de que ele era tão maravilhoso até o ano passado. O Gregor passou de CDF de óculos fundo de garrafa para gostoso sem igual e inteligente, ainda por cima. Claro, cobiçado por metade da escola. Inclusive por metade da ala masculina, tenho certeza. E por mim.
Mas enfim, não tem nada a ver com essa mudança dele o que eu quero contar. Na verdade, só queria contar uma coisinha que me aconteceu outro dia.
Eu passava em frente à casa dele, voltando da escola. É caminho, antes que você faça gracinha. Ele costuma sentar lá e tocar violão, assim que chega da aula, de uniforme mesmo. Sei lá por que, talvez pra esperar o almoço. Ele é estranho, gosta de ser estranho. Eu gosto dele estranho. É daqueles que não tem muitos amigos, como eu.
Ele sempre me dá um oi e eu sempre respondo um oi. E sigo meu caminho.
Nesse dia não. Ele deu o oi e disse "Lan, vem cá". Gelei. Ninguém me chama de Lan, só minha mãe.
Você pode imaginar meu coraçãozinho saltitando por aí, surtado de um pavor interno? É, e pra completar, eu precisei conter o fôlego, que também quis saltitar. Juntei o que tinha do meu cool e falei "claro, beleza".
Sentei e perguntei "O que é?", com toda a doçura possível. Era ele, você sabe.
"Queria te mostrar a música que eu escrevi pra você".
QUÊ?
E lá foi meu coração... como assim uma música pra mim? Como assim?
"Claro, mostra aí". Cool.
Quando eu me apaixonar, vai ser por você
Enquanto você me esperar, eu espero você
Quando você me quiser, eu sempre vou te querer...

Sei lá o resto. Chorei por dentro, senti meu baço se desfazer em lágrimas. Meu estômago revirou e as borboletas saíram em revoada lá dentro. Olhei pra ele e fiquei estupefata. Sabe o que é ninguém nunca ter dito algo similar pra você, em 16 anos? Sabe o que é você ouvir esse tipo de coisa em novela, filme, clipe do Paralamas do Sucesso, mas nunca na sua vida estúpida? É, você entende?
Eu não beijei ele. Não naquele dia. Mas voltei pra casa com a sensação de que a adolescência não ia mais ser aquela coisa assustadora e solitária na qual meu irmão me tinha feito acreditar.

Tico

Simpatizou de cara com o cachorrinho malhado. Era um risco enorme pegar bichinhos assim, de estranhos na rua, mas aquele lindinho precisava de uma casa. Tinha uma manchinha branca em volta do olho, mas era praticamente todo marrom. Um docinho de bicho. Melissa o levou pra casa numa caixinha de sapato. O animal não devia ter três meses.
Deu um banho, passou secador, comprou coleirinha anti-pulgas, fez todo o esquema. Levou no veterinário de mês em mês, até ter certeza que seu filhote estava 100% saudável. Até deu um nome saudável: Vitamina. Tinha uma cara de saúde e alegria incomparável.
Deu que um dia Melissa começou a se perguntar sobre os outros filhotes, aqueles que ela não levou naquele dia. Vitamina já ia fazer seis meses. Melissa resolveu ir lá procurar o senhor que estava dando os bichinhos. Se não por nada, pelo menos queria saber se eles estavam bem. Não lhe ocorreu que três meses já haviam passado.
Foi até a dita esquina, em frente a uma loja de fogos de artifício que só abria durante as festas, onde o moço havia estado. Nada, nem sinal. Claro, faz uma década que ele esteve aqui, ela pensou. Era meio lenta nesse aspecto. Bondosa demais, talvez. Mas lenta.
Foi até a padaria em frente indagar sobre o tal senhor e o destino dos cachorrinhos. Descobriu do moço que cuida das mesas que o senhor conseguiu dar todos os cachorrinhos menos um, um quase todo branco, macho, com catarata no olho esquerdo.
O moço disse a ela que perguntasse na banca ao lado, já que o jornaleiro era mais amigo do homem dos cachorros.
"No total, ele ficou aqui bem uns três meses, estava desempregado. Tava aí ainda ontem", o jornaleiro falou. "Não tinha mais eira nem beira, era viúvo, sem filhos". Mas tinha os cachorrinhos. "Sua cadela deu cria na pior hora". Ele se compadeceu do destino dos bichinhos, que não teriam casa nem comida, e torceu pra que alguém lhe desse algum trocado pelos animaizinhos. Claro que, na hora, ele não teve coragem de pedir nada pelos filhotes. Sempre fora contra comprar bicho. "É que nem comprar gente. Você compraria um filho?". Várias vezes os passantes que perguntavam quanto era ouviam a mesma história. "Um dia, sobrou só ele e o Tico, que era o filhote com catarata. Ninguém queria o Tico. Mas ele amava o Tico, achava cruel simplesmente largar o coitado à própria sorte."
Resolveu largar dentro da casa de alguém. Disse que ia procurar uma casa para o bicho, alguém que já tivesse cachorro e parecesse poder cuidar do dito. E foi-se. "Isso foi ontem à noite", não sei onde ele se meteu, mas não voltou pra conversar nem nada".
Melissa tomou o caminho de casa pensando no destino do pobre Tico e torcendo pra que ele encontrasse uma família boa. E que o velhinho conseguisse trabalho. Era bondosa.
Chegou em casa e ouviu o latido do Vitamina. Se havia um cachorro para sentir presença da dona, era ele. Latia que só ele, mas à noite era bonzinho e ficava quieto. Era bom em relações sociais.
Só que os latidos pareciam estranhos. Não era só o Vitamina. Não lembrava de ter mais cachorros na vizinhança. Mas enfim, vai saber.
Quando finalmente passou o portão de grades, viu. Era o Tico. Lá, ao lado do seu irmão bem tratado e limpinho. Ele estava sujo que só, com cara de fome, mas parecia feliz. Latia e pulava como nunca, apesar do olhinho com catarata e um pouco de sarna na orelha. Estava em família.


Nunca entendi quando o Sting falava "eu vou ficar enrolado em volta do seu dedo" naquela música. Aliás, até uns 14 anos, música era um negócio quase enigmático. Já falava um inglês mediano, ficava traduzindo música, mas aquelas expressões sempre me deixavam louca... traduzia ao pé da letra mesmo e achava que não fazia sentido. Na verdade, eu pensava que aqueles caras eram gênios poéticos e eu era tonta demais para entender toda aquela grandiosidade. Não importa. Voltando ao assunto, eu só fui entender aquela frase do Sting, e todo aquele sentimento, afinal o cara realmente é um gênio poético, isso não há dúvidas, quando eu conheci o Emerson. Ele me mostrou o que é você se sentir amarrado a alguém, que com um movimento do dedinho consegue com que você faça as maiores bobagens e seja um completo cachorrinho. Hoje eu não falo mais com ele, mas foram seis anos da minha vida que eu considero perdidos. Perdidos mesmo, sim. Quem passa seis anos sendo completamente comandado por alguém, seja namorado, amigo ou chefe, perdeu uma vida. Eu perdi a minha, mas estou recuperando. Hoje, eu freqüento a igreja universal e sei que essa coisa de ser comandado, só pelo chefe lá de cima. O bispo me mostrou que o Emerson só queria me afastar da igreja. Eu faço de tudo por eles lá na igreja, pago um belo dízimo, como Deus quer, ajudo o bispo com o que dá, afinal, é só ele que pode me levar até o Paraíso. É, isso mesmo, o bispo é genial. Uma coisa poética.

Já era manhã quando Léia desceu do carro do cliente. Não gostava que a deixassem na porta de casa, afinal os filhos podiam ver e sempre havia os vizinhos. Todos desconfiavam de sua ocupação e também não era de se esperar menos. Ela ficava a madrugada toda fora. Os filhos achavam que trabalhava numa fábrica, fazendo peças. Os pais não sabiam da verdade, mas pelo menos morreram achando que a filha ia terminar a faculdade de ciências sociais. Mas não havia de ser por muito tempo. Ela queria ser pintora... pintava o dia todo. Quem sabe um dia, pensava. Quem sabe um dia eu vendo meus quadros, um dia eu fico famosa.

5.5.03

E aí? Será que essa piaba é boa mesmo?