Três novos contos: O Vendedor de Amendoim, A Roberta e Agendinha. Dêem opiniões, faz favor! :)
26.9.03
A Roberta
- Ô cobrador, onde eu desço pra ir na casa da Roberta?
- Que Roberta, moço? Conheço não.
- Ah, a Roberta, ela tá sempre nessa linha. Uma morena assim assim, sorridente, que trabalha na manicure.
- O senhor sabe que rua ela mora? Ajuda bastante.
- Rua? Sei não. Mas todo mundo conhece a Roberta. Vai, não conhece?
- Não.
- Ah, conhece sim! Só não tá lembrando!
- Ô motorista, você conhece alguma Roberta que sempre anda com a gente?
- Roberta? É aquela loira gostosa que sempre desce no ponto final?
- Não, é uma morena sorridente. Ela tem cabelo cacheado.
- Então não conheço.
- Ah, cobrador, vai, você conhece sim. Ela sempre senta aqui na frente pra conversar com você! Ela me disse!
- Ela te disse que sempre conversa comigo? Mas eu nem conheço ela!
- Conhece sim... então, onde eu desço pra ir na casa dela?
- Meu filho, não conheço Roberta.
- Você deve estar de brincadeira comigo. Vou sentar e você me avisa quando for o ponto.
...
- Então, demora?
- Demora o quê?
- A casa da Roberta!
- Não sei onde mora a Roberta, cidadão. Vai encher outro!
- Tudo bem. Não quer ajudar, não ajuda. E ela ainda diz que você é amigo dela...
- Caramba... o que eu tenho que fazer pra você acreditar que eu não conheço a Roberta?
- É ciúme? Você tá achando que eu tou a fim dela?
- Quê??
- Não tem nada a ver. A gente se conhece desde criança. Ela namorou o Neca, meu melhor amigo. Conhece o Neca?
- Não!
- Calma, Nilson, também não precisa ser grosso!
- Nilson? Quem é Nilson?
- Você, oras!
- Não, eu sou o Geraldo. O Nilson é o outro cobrador da linha.
- Ah é?
- É.
- Então desculpa. Foi mal, hein. Ô piloto, espera que vou descer!!!
O vendedor de amendoins
- Amendoins, salgado e doce. Tem amendoim!
- Tio, me dá dois pacotinhos?
- Salgado ou doce?
- Um de cada.
- Aqui está. São dois reais.
- Não tenho dinheiro.
- Então devolve. Por que você pediu?
- Eu pedi pra você me dar, não pra me vender.
Agendinha
- Alô?
- Oi, eu queria falar com a Nena.
- Pera. Nenaaaaaaaaaaaaaaa! Telefone!
- Alô?
- Nena? Oi, é o Tércio.
- Tércio! Oi, tudo bom?
- Tudo. Era sua irmãzinha?
- Era sim. Uma escandalosa. Mas diga, você nunca me liga. O que houve?
- É, assim, eu tenho um casamento pra ir. Queria te levar.
- Eu? Ah, puxa, que legal. Eu até vou, mas não tenho roupa pra casamento.
- Droga, o mesmo que a Lurdinha disse...
- Hein? Não te ouvi direito!
- Nada não, disse que é uma peninha. Mas será que você não consegue arranjar nada assim, emprestado? E eu queria tanto que você fosse...
- Bom, posso tentar algo com a Lurdinha, acho que ela tem uns vestidos.
- Tem não.
- Como você sabe?
- É, ahn, palpite.
- Sei... mas quando é o tal casamento?
- É no sábado, na igreja de Santa Genoveva, ali no jardim Beira-mar.
- Ah, no sábado acho que não vou poder! É aniversário da minha avó!
- Diabos... Vou ter que ligar pra tonta da Celina...
- Como? Essa ligação fica ruim de vez em quando...
- Nada. Só estava pensando alto. Então, dá um cano na sua vó, vai?
- Tadinha da velha, Tércio. Mas, tá bom. Vou ver, acho que dá pra fugir depois do parabéns. É à noite?
- Isso.
- E tem festa depois?
- Tem sim. Vai ter um churrasco. Você gosta de churrasco, né?
- Na verdade, sou vegetariana.
- Claro, claro... tinha esquecido.
- Não tem problema.
- Nena... vegetariana... não é a Bete...
- Alô? Tércio, você tá falando muito baixo!
- Não tem nada não, tava só falando pra minha irmã que você vai.
- Ah, então tá bom. Ainda não é definitivo, tá? Te dou resposta amanhã com certeza.
- Não pode ser ainda hoje?
- Por que a pressa?
- Bom, vai que você decide não ir.
- Ah é? E se eu não for, você vai chamar outra, é isso?
- Que isso, Nena. Você acha que eu sou o quê?
- Ah bom. Sabe que eu ia ficar muito chateada.
- Nena, na minha agenda de telefone só tem você.
13.9.03
No ponto do ônibus
- Cara dama, eis aqui meu cartão.
- Cartão? Mas nem é meu aniversário. E quem é você, tio?
- Estou encantado com sua beleza. Meu nome é Epaminondas. E sua graça?
- Graça? Minha graça? Fica longe dela!
- Desculpe se não me faço entender, quis perguntar seu nome.
- Você é esquisito, hein. Quer meu nome pra quê? Não fiz nada.
- Gostaria apenas de saber quem é este anjo a quem me dirijo.
- Tá, eu sou a Lena.
- Lena, como a grande Helena de Tróia. Que mimo!
- Tróia? Ei! Eu não tenho nada a ver com aquele puteiro não, né? Não importa o que as meninas da faculdade falam!
- Trói... ah, não. Desculpe novamente. Você não conhece Helena de Tróia?
- Já falei que não freqüento lugar assim.
- Tróia era uma lendária cidade grega. Mas isso não interessa. Fale-me de você.
- Cada esquisito que me aparece no ponto de ônibus... tio, eu tou ocupada, tá? Tou indo pra faculdade e o ônibus não chega. Você quer um trocado, é isso?
- Como? Insulta-me! Dinheiro! Pois, não me interessa seu dinheiro. Quero apenas travar conhecimento com sua pessoa.
- Ah, vá travar algum desocupado. Quer dinheiro pro busão fala logo, eu até dou. Mas não me enche.
- Com efeito, a juventude não tem mais respeito por nada! Não pode agora um homem de classe dirigir-se a uma bela dama quando a encontra?
- Conheço esse papo, nem vem. Você tá é querendo me engambelar pra eu te dar uns trocados. Pode parar. Eu já vi isso na TV!
- Como ousa!
- Quer um trocado ou não quer? Não vou oferecer de novo.
- Hummm... tá. Dá um troco pra passagem?
- Claro. Toma. Agora vê se não me enche, tio.
- Mas se quiser passar em casa para uma chávena, fica o meu convite.
- Ah, vê se me esquece.
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