15.6.03

Joga fora no lixo



- Mãe, vou jogar tudo fora
- Ai, joga não, filho. Que desperdício...
- Mas pra que serve esse sacão de pena de ganso jogado no quarto, mãe? É uma bagunça completa.
- Ah, filho, sei lá, pode servir um dia. Sabe, de repente a gente faz um travesseiro novo. Ou então uma fantasia pra sua irmã brincar no carnaval. Nunca se sabe.
- Mãe, você tá muito frescurenta. Isso é um monte de pena velha que você guarda não sei porquê. Vai tudo pro lixo.
- Filho, não, deixa tudo isso quieto aí. Bobagem se dar ao trabalho com essas coisas. Deixa que a mamãe depois guarda isso melhor.
- Ô mãe! Que tá rolando? Deixa eu jogar fora! Eu quero dar um jeito nesse quartinho pra poder colocar minha bateria e a minha banda de surf-jazz poder ensaiar aqui!
- Você não entende, filho, essas penas, bem, podem ser úteis. Elas podem ser importantes.
- Pô, mãe, você tá me enrolando. Como assim importantes?
- É... bom, eu não queria te contar, acho que você ainda é muito novo pra saber dessas coisas, mas tudo bem.
- Mãe, do que você tá falando?
- Essas penas...
- Que tem as penas??
- Elas são do seu pai.
- Do pai? Mas o pai não morreu um pouco antes de eu nascer? E, tipo, gente não tem pena, mãe.
- É, mas seu pai era especial... eu queria esperar você ficar um pouco mais velho, mas vá lá. Seu pai era um príncipe encantado.
- Quê???????? Pirou, mãe?
- Era sim, ele se transformou em ganso por conta do feitiço de uma bruxa invejosa, quando eu fiquei grávida de você.
- Mãe, pera, como, príncipe do...
- Aí, pra se livrar do feitiço, tínhamos que depená-lo e jogar a poção mágica nele.
- O meu pai, príncipe... como...?
- Só que não deu certo. Nós esquecemos de misturar as pernas de momirrato e aí seu pai desapareceu. Só ficaram as penas.
- Você pirou, mãe, só pode ser!
- Não, filho, espera, ouve. Aí, uma bruxa boa apareceu e me disse que havia prendido a bruxa maligna que havia posto o feitiço. Só que ela não podia desfazer a poção errada. Então, ela me disse pra guardar as penas até o seu décimo-nono aniversário.
- E quando eu fizer dezenove, o que acontece?
- Não sei.
- Como não sabe?
- Quando a bruxa boa ia dizer, a outra bruxa, a má, veio atrás dela e as duas estão brigando até hoje, na galáxia de Kapor.
- Galáxia de Kapor??
- É de onde vem o pó de pirlimpimpim. Eu tenho certeza que já te contei isso...
- Ok, mãe, você pirou de vez. Kapor o caramba, você vai comigo ver um psicólogo.
- Filho, é sério, não faz assim com a mamãe. Depois a gente não consegue recuperar seu pai!
- Mãe, pô, ele morreu, cai na real!
PUFF!!!
- Ai, meus olhos, que clarão foi esse???
- Silêncio, reles criatura, você deve ouvir o mago Taki em silêncio!
- De onde você veio, cara? Mãe, quem é esse? É seu namorado?
- Filho, esse é o mago Taki. Ele que me apresentou seu pai!
- Quê????
- Quieta, criança! A bruxa Blini pediu-me que trouxesse um recado: ao completar dezenove anos, você deve cortar um caqui maduro ao meio e cobri-lo com as penas de seu finado pai. À meia-noite deste dia, o príncipe voltará.
- Oh, é um milagre! Filho, finalmente!
- Mãe, eu não sou trouxa, isso aqui é uma pegadinha do Gugu?
- Olha como fala comigo, reles humano!
- Na boa, que fantasia fajuta... ZAAAAAAP!! ARGH!!!
- Não ouse tocar o mago Taki, moleque. Você sofrerá as consequências!
- Orra, o cara é bom! Mas ok, mãe, já acabou a piada. Agora vou limpar o quartinho.
- Não toque nas penas do príncipe sagrado, moleque! Elas só devem ser manuseadas no momento correto.
- Ah, deixa de frescu... ZAAAAAAAAAAAAAAAPPP! AAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!
- ...
- É... mago Taki, ele vai ficar em animação suspensa por muito tempo?
- Só até que a magia da bruxa Blini faça efeito.
- Mas ele ainda tem 16 anos, mago.
- É a vida. Você vai ver, o tempo passa rápido.
- Puxa vida... aceita um cafezinho enquanto esperamos?

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