Esse conto é do Gabriel. Eu adorei.
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Apesar das remelas no meu olho a vista da janela da sala parecia extremamente convidativa. Não sei se era porque o dia estava bonito, com a luz forte do sol vindo por trás, iluminando sem ofuscar, ou se porque a janela estava aberta e eu podia ver tudo com mais detalhes... A janela não estava aberta! O vidro estava é limpo. É verdade, a Cleide veio ontem. Nem lembrava... Apesar disso, o dia estava bonito, e estranhamente eu não estava sonolento, apesar de ter acordado no horário.
No caminho para o trabalho percebi que a cidade, ou pelo menos aquela porção que diz respeito ao caminho para o trabalho, estava realmente mais limpa do que o normal. Parece até que teve um dilúvio à noite. A típica calçada paulista era novamente branca e preta ao invés de cinza claro e cinza escuro. Não havia aqueles também típicos excrementos de cachorros sempre com a marca de sapato de outrem menos afortunado. O sol não estava frio e nem escaldante e iluminava os prédios de modo que até a pintura deles parecia nova e sem as conhecidas rachaduras. As lojas ainda estavam abrindo, não havia bêbados caídos nas calçadas. Por um momento eu realmente achei que eu iria morrer. Como acontece no filmes.
Não morri. Mas cheguei até o trabalho. Acho que tecnicamente há uma diferença, mesmo que eu não consiga ver.
E lá estava eu, me entediando. Fazendo o que era pago para fazer. Olhando para o monitor -- esse sim, sujo. Checando se nenhum dos processos automáticos da madrugada tinha adquirido consciência e se recusado a trabalhar só para tirar o sorriso da minha cara. Maldito, o que copia o horóscopo do dia tinha. Tinha tirado o sorriso da minha cara.
Tudo resolvido? Vou checar. Clico no meu signo, pensando em quão imbecil é esse tipo de crendice pra mim. Quão imbecil é qualquer tipo de crendice. Bom, a data agora está certa... Ótimo dia para não fazer nada... Eu li isso direito?!
Ótimo dia para não fazer nada, apesar da cobrança e da pressão externa e da interna. Há hora para tudo e hoje é dia bom para você se lembrar do passado, quando tinha mais tempo para viver ao sabor dos eventos que outros criavam. Era isso que ele dizia na íntegra.
Apesar de eu conhecer pessoalmente o tipo que escreve isso, que manda dezenas e dezenas de previsões adiantadas nas vésperas de feriados, eu... Eu nada! Ainda acho isso uma crendice estúpida como qualquer outra. De volta ao apertar de botões.
3.6.03
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