18.6.03

A Profecia

- Há quantas horas a gente está aqui?
- Putz, não sei. Umas três?
- Coisa assim, deve ser. Vamos embora, vai.
- Calma, só mais um pouquinho e alguém aparece.
- Aparece nada, ô idiota dos infernos, a gente tá aqui nessa escuridão e nada de passar gente!
- Te juro que passa. E aí a profecia vai se concretizar.
- Você tá falando desse raio de profecia há duas semanas e não me conta o que é.
- Quando for o momento, você saberá.
- Ai...
- Olha, vem gente aí!
- Shhh...
- Alou, tem alguém aqui? Aaaarrrgh!
- Quem é você?
- E-e-e-e-u... quem são vocês??? Por que pularam em mim?
- É parte da profecia, moço, depois a gente explica. Quem é você?
- Eu sou o Genésio. Trabalho ali no posto, pode perguntar. O que vocês querem de mim?
- Diga a palavra mágica, Genésio! Vai, fala!
- Quê???
- Vai, você tem que concretizar a profecia! Você é o enviado!
- Opa, pera lá, sou muito macho! Tenho namorada! O que dizem aí na cidade é só fuxico!
- Enviado, seu surdo. Um mensageiro do Divino! Vai, diz a palavra mágica!
- Qual é a porra da palavra mágica?
- E eu que sei, Zico, qual é a palavra mágica?
- E eu sei lá? Ele é o enviado, ele que devia saber!
- Você faz o cara parar, do nada, nessa escuridão, e não sabe nem o que ele tem que fazer? Pô, Zico, que vacilo!
- Mas, você não entende, é a profecia! Ele é o mensageiro!
- Bela porcaria de mensageiro você foi me arrumar. Nem sabe a mensagem!
- Ahn, dá pra você largar da minha camisa, cidadão? Eu tenho família pra cuidar e já tá tarde pra caramba.
- Ah, putz, mal aí. Vai tranqüilo, foi um engano, amigo. Pensamos que você era o enviado.
- Foi nada não, acontece.
...
- Nossa, o cara corre, hein?
- E não era o tal enviado, sua anta! E aí, ele vai passar por aqui ou não?
- Olha, o esquema, segundo a carta profética que eu recebi, era que o enviado ia passar aqui até a meia-noite, que é agora, e ia falar a palavra mágica.
- E daí?
- Daí a gente vai pro céu e vive num rio de leite e mel cercado das tantas mil virgens do paraíso.
- Sério? Mesmo? Pô, por que você não falou antes?
- Ah, você podia pirar no conceito, querer chamar mais alguém, sei lá.
- Legal, e só o que a gente tem que fazer é esperar o cara?
- Isso aí.
- Então cadê o dito cujo, seu mentecapto??
- Ai, calma, uma hora ele passa.
- Só espero mais uns quinze minutos.
- Tudo bem... já passou da hora do enviado mesmo.
- É, e eu já perdi a novela e a Tela Quente...
- Olha, quieto aí, tá vindo outra pessoa!
- Psst...
- Hein, quem tá aí?
- Chega aqui, rapaz! Você é o enviado?
- Que viado, que o quê! Isso é disse-que-me-disse...
- Será que é todo mundo surdo nessa cidade? Enviado, mané! Mensageiro, arauto, como queira!
- Ah tá. Sou eu mesmo.
- Ahhh, beleza, então chega aqui e conta pra gente a tal palavra mágica.
- Ô Marcos, isso é jeito de falar com o enviado do Divino? Pera.... Ó, enviado do Divino, dê-nos o prazer de sua companhia e diga-nos a palavra mágica que nos libertará deste mundo cruel.
- Vocês querem saber mesmo? Olha que o negócio é sério.
- Opa, é claro! Tem as virgens lá, não tem? E o tal rio de leite com mel?
- Tem, claro, mas também, é só isso.
- Peralá, Zico. Como assim, chegado? É só isso? E futebol?
- Tem não.
- Macarronada?
- Não.
- Lasanha?
- Nem...
- Biscoitinho de aveia com goiabada?
- Nadinha. Só leite e mel.
- Ah, Marcos, que isso, pensa meu... trocentas virgens. É bacanal todo dia. Você até esquece comida!
- Posso levar minha mãe?
- Não.
- E o Tuca, meu cachorro?
- Nem pensar. A oportunidade é por tempo limitado e só se aplica a vocês dois. É agora ou nunca.
- Pera aí, senhor enviado. Deixa eu levar um papinho a sós com o Marcos aqui.
- Mas, Zico, não tem macarronada!
- Meu, esquece essas bobagens! Imagina: tem mulher a dar com pau. E não é Dercy Gonçalves não. É tudo no nível da Luma de Oliveira, no mínimo...
- Luma de Oliveira, é? Será que tem alguma no esquema Vera Fischer? Sabe, gosto mais de mulher madura...
- Tem, claro, tem sim. Vai, deixa de onda, deixa o cara levar a gente.
- Tá, beleza. Só vou fazer mais uma perguntinha então.
- Tá, pergunta o que quiser, mas vamos logo com isso.
- Ô rapaz, só mais uma coisa: tem novela lá?
- Novela? Hahaha! Não! Não tem TV no paraíso, ô, energúmeno!
- Ah, então nada feito.
- Decisão final?
- Leva só eu então, enviado, por favor. Larga esse palerma aí!
- Nada feito, ou os dois ou nenhum.
- Porra, Marcos, vambora!
- Nananinanão.
- É a vida! Até a próxima, hein! - PUFF!!-
- MARCOS!! Você pirou, cara??? As virgens, meu! O rio de mel! As virgens!!
- Mas, Zico, o que a gente ia ficar fazendo quando elas estivessem menstruadas? Ou quando estivessem dando um tempo antes da segunda?
- Marcos, sua anta, no paraíso ninguém menstrua!
- Ah não?
- Não, seu idiota.
- Putz, mal aí.

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