Vovó
- Filho, hoje a gente vai visitar a vovó, tá bom?
- Pô, mãe, de novo? Eu fui lá anteontem!
- Marquinhos, a vovó não tá bem de saúde, a gente precisa ir lá dar um ânimo pra ela.
- Saco.
- O que você falou?
- Ahn, nada, sapo. Tem um ali, ó.
- Não tou vendo nada.
- Ah, ele pulou pro mato de novo.
- Tá bom, querido, agora se comporta, hein. Não fica contradizendo a vovó.
- Tá bem, tá bem...
SLAM!!
- Tá achando que isso aqui é geladeira, Marquinhos? É um carro!
- Não sei qual geladeira você bate a porta assim. Eu só bato porta de carro desse jeito, mãe.
- Ai, minha paciência... tá, filho, vai, vamos entrar logo que a vó está esperando.
- Oi vó, tudo bom com a senhora?
- Ah, Marquinhos, que gracinha, veio ver a velha, é?
- É.
- Não fala desse jeito com sua avó, menino. Responde direito!
- É, vó, viemos ver a senhora.
- Que gracinha... entra, vem, vamos tomar um cházinho e comer uns biscoitos de nata.
- Psst, mãe, a vó ainda faz biscoito de nata? Ela não tava proibida de mexer no fogão?
- Faz não, mas se ela oferecer algo, finge que é. O médico falou que ela pira de vez em quando nessas coisas do passado.
- Toma um biscoitinho, toma, menino. É de nata, seu favorito, Marquinhos.
- Eu odeio esse biscoito de nata... ah, claro, vó. Delícia.
- Esse papagaio tá cada vez mais esperto, né, filha? Fala cada coisa!
- Papagaio??
- Ahn, é, claro, mãe. Uma esperteza sem igual.
- Papagaio???
- Shhh...
- Mãe, papagaio??? Eu não sou um papagaio!
- Quando eu era criança a gente tinha um papagaio chamado Marquinhos. Ela deve estar te confundindo com ele.
- Mãe!! Você me deu nome de papagaio???
- Ai, Marquinhos, é uma longa história... seu pai queria Marcos de qualquer jeito, eu expliquei pra ele, mas enfim... perdi no par ou ímpar. Vai, só finge que é um papagaio, senão sua avó surta.
- Você escolheu meu nome no par ou ímpar???
- Ah, filho, é bobagem, é só um nome...
- Como era pra eu chamar se você tivesse ganhado?
- Aderbal.
- Dá o pezinho, dá, louro! Olha, eu tenho um biscoitinho de nata pra você!
- Mãe...
- Vai, filho...
- Toma o pezinho... ahn, currupaco.
- Que mimo! Uma belezura de papagaio! Minha filha, já te contei que quando eu e seu pai nos casamos, tivemos uma briga danada pra escolher seu nome?
- É mesmo, mãe? Que legal. Eu adoro Berenice. Acho tão diferente.
- Bonito, né?
- Sem dúvida.
- Currupaco.
- Quieto, Marquinhos. Tá muito respondão!
- Hi hi hi hi!
- Eu perdi no pôquer, então quem escolheu seu nome foi o Manuel, do açougue.
- Meu nome foi escolhido pelo cara do açougue, mãe???
- Foi, querida, não é hilário???
- Ha ha ha ha ha! Quer dizer, currupaaaaco. Quá, quá, quá, quá!!
- Cala a boca, Marquinhos.
- Currupaco, paco, paco, paco!
- Toma um biscoitinho, Marquinhos! Fala uns palavrões pra mamãe, fala!
- Marquinhos, não.
- Mãe, ela que tá mandando. Não é pra contrariar, né?
- Fala, louro!
- Porcaria! Saco!
- Pssst, Marcos Aurélio!
- Ai, que beleza. Seu pai só ensina besteira pra ele, filha!
- Puta merda, caralho, porra!!
- Hahahaha! Que boca suja esse bichinho!
- É, mãe...
- Se fosse filho a gente já tinha lavado a boca com água e sabão.
- Pode apostar. Se fosse meu filho, já tinha levado surra...
- Currupaco. Sou um papagaio.
- É, sem dúvida que é um papagaio...
- Currupaco.
- Fica quieto, Marquinhos.
- Deixa o bichinho, filha. Vai, querido, fala mais palavras.
- Tou com sede, currupaco.
- Quer uma aguinha, lindo?
- Quero guaraná, currupaco.
- Olha que exigente! Filha, vai pegar guaraná pra ele, vai.
- Mãe, papagaio não toma guaraná.
- O Marquinhos é especial, Berê!
- Tá bom, tá bom... tou indo. Você me paga em casa, moleque...
- Currupaco, currupaco...
30.6.03
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