8.10.03
Viva os pássaros
Nada mais se ouviu da boca de Cristiano. Viva os pássaros. Foi a última coisa que ele conseguiu dizer antes de sua hora. As palavras intrigavam Ana e iriam deixá-la confusa até o último minuto de sua vida.
O que ele quis dizer com aquele "viva os pássaros"? Ana não sabia. A mãe de Cristiano, dona Alendina, também não sabia, assim como não sabia o pai de Cristiano, seu João, que era um ávido observador de pássaros, mas que nunca conseguiu incutir o gosto pelo hobby em seu filho mais velho.
Mais cedo, na vida, Cristiano quis ser bombeiro. Foi por volta dos 18, 19 anos. Ele morreu com 38. Cedo. Mas ele queria ser bombeiro. Todos sabiam de sua fascinação pela profissão. Nadava muito bem. Corria como o vento. E adorava ajudar as pessoas.
Ele fez testes e concursos por quase dois anos. Sempre era rejeitado pois era ainda muito jovem, mas queria estar preparado para o momento em que pudesse ser aprovado. Quando completou 21 anos, foi ao quartel tentar novamente.
Muito aplicado, passou no exame físico sem uma mácula em sua ficha. Sua saúde era de ferro. Ficou em primeiro lugar no teste teórico. Estudava como louco todas as noites.
Mas ele não contava com seu primeiro dia de trabalho.
Seu batalhão foi chamado para podar algumas árvores que punham em perigo o tráfego de uma ruazinha do subúrbio. Ele adorou a idéia de começar a profissão de maneira leve, sem fogo, sem vítimas.
Foi escalado para subir na árvore, já que era seu primeiro dia e ele queria colocar a mão na massa. Subiu, feliz da vida por ter um papel importante em sua primeira missão. Ao chegar no primeiro galho a ser cortado, viu aquilo que nunca esqueceu: um ninho de pássaros.
Olhou, olhou, olhou e tentou espantar os passarinhos. Eles não saíam. Quando Cristiano olhou dentro do ninho, viu que havia lá três ovinhos. Ovinhos de pássaro. Não sabia que pássaro era, mas era lindo, como eram todas as criaturas do mundo, para ele.
Tentou mover o ninho. Levou bicadas do casal pássaro. Decidiu que não poderia tirá-los de lá.
Ao descer para informar a equipe da decisão, Cristiano foi ridicularizado e ouviu que não iam deixar de cortar o perigoso galho por causa de uns passarinhos. Seu sangue ferveu.
Ninguém corta essa árvore!, ele gritou. Subiu, sem equipamento e sem nada e se empoleirou no galho, bem no alto.
Os outros bombeiros não entenderam e pediram que Cristiano parasse com a brincadeira. Mas para ele não era brincadeira. Ele já não estava mais em si.
Não desceu tão cedo, fez com que o chefe do batalhão fosse acionado. Fez com que o retirassem de cima da árvore sob protestos, gritando "viva os pássaros". Fez com que fosse expulso do batalhão logo no seu primeiro dia de trabalho.
Voltou pra casa cabisbaixo, sem uniforme e sem pagamento. Chegou em casa quieto e quando a família perguntou como havia sido o primeiro dia de trabalho, ele disse que tudo havia ido bem.
No dia seguinte arranjou um emprego de assistente administrativo numa firma do outro lado da cidade. Para os pais e os irmãos, disse que continuava bombeiro, mas em outro batalhão, longe de casa. E assim foi por quase vinte anos. Saía de casa, com uma mochilinha cheia, dizendo que continha o uniforme, e ia para seu emprego de assistente administrativo. Eventualmente, foi promovido a gerente.
Aos 26 anos conheceu uma garota fantástica, após vários namoros fracassados. Casou-se com ela e nunca lhe contou a verdade sobre o emprego de bombeiro. Ela nunca soube do emprego de gerente, mas também nunca o viu em ação como bombeiro. Gostava da idéia de um marido tão valente e acreditava que ele combatesse o fogo.
Aos 38 anos, Cristiano faleceu, num acidente de carro. Os poucos amigos que sabiam a história verdadeira disseram à família de Cristiano que ele morrera no cumprimento do serviço. Conseguiram até um amigo bombeiro para ir ao enterro e fingir que a corporação o havia mandado com uma nota de pesar pelo falecimento de tão bom profissional.
E, ainda, Ana não sabia do que se tratavam as últimas palavras de Cristiano, transmitidas a ela por Roberto, o amigo que também estava no carro e sobreviveu ao acidente.
Ana nunca soube do episódio do pássaro e da falsa vida de Cristiano, assim como toda sua família. Roberto guardou o segredo até sua morte.
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