3.10.03
O cão, o banheiro e o dono dos dois
Fuligem fala. Só que Fuligem não é gente. É um cão. E cães não falam. Pelo menos, não de onde eu venho. E agora eu tenho um cão que fala.
- Então, onde é o banheiro?
- Banheiro? Meu, vai lá no jardim. Você é um cachorro.
- Não sou cachorro. Quer dizer, sou, no sentido estrito da palavra. Mas quero ser gente. Eu falo.
- Falar... grande coisa. Não é por isso que vou deixar você usar meu banheiro.
- Ah é? Olha o que eu faço com seu piano!
E ele mijou na perna do piano.
- Viu, você não é gente, você é ca-chor-ro! Gente não mija em perna de mesa.
- Piano.
- Piano. Gente não mija em perna de nada, Fuligem.
- Mas se fosse vingança...
- É, se fosse vingança talvez. Verdade... lembro de uma vez, na quarta série. Eu mijei no material escolar do Nico. Mas ele era um idiota, mereceu.
- O que ele tinha feito pra você?
- Ele puxou minhas calças na frente da escola inteira, na festa junina. Cretino...
- É, mereceu.
- Também acho... meu! Eu estou discutindo minha vida com um cachorro! Passa, vai!
- Que passa o quê. Quero usar o banheiro.
- Acabou de mijar na perna do meu piano! Pra que você quer banheiro agora?
- Número dois...
- Ah, diabos... vai! Vai logo! E veja se puxa a descarga quando terminar.
O cão volta meia hora depois, carregando o jornal na boca.
- Melhor você não entrar lá pelo resto do dia.
- O que você almoçou, hein?
- Oras, aquela papa nojenta que você me deu. Todos os restos de tudo!
- É, acho que não deve fazer bem, né?
- Você acha?
- Você prefere ração?
- Ração? Não dá pra ser um pouco criativo? Eu quero um bife, ou uma torta de frango... ou, já que estamos nisso, sabe fazer suflê?
- Suflê?
- É uma iguaria única. Um bom suflê de queijo com espinafre eleva a alma.
- O que você estava lendo no banheiro?
- Vai pro inferno. Você não sabe apreciar a boa comida. Aposto que só faz salsicha e miojo.
- Ei, eu como arroz e salada todo dia!
- Todo dia que a empregada vem, né?
- É... mais, ei! Eu ainda mando aqui! Que mané suflê que nada. Se quiser comida, eu trago ração. Você é um cachorro!
- Ração, blá. Não se espante se de noite eu vier fazer uma boquinha.
- Vai pro inferno, Fuligem.
- Aliás, liga a TV. Vai passar meu filme favorito hoje, o Cão Demônio.
- Achava que depois do Palhaço Assassino os produtores fossem tomar vergonha na cara.
- O Cão Demônio é um clássico do cinema contemporâneo! Um filme francês da melhor qualidade!
- Ah é? Qual a história?
- Um doberman tomado pelo espírito de um assassino serial dos anos 20 ataca uma cidade francesa de veraneio.
- Sim... belo clássico. Faz pensar.
- Você me irrita.
- Você ainda não viu nada.
- Não me admira que você viva sozinho. Ninguém deve te agüentar.
- Você não sabe da metade.
- Ah é? Então vai se catar! Pára com essa cara de tranquilo e briga, pô! Qual a graça de ficar brigando com o Dalai Lama?
- Somente pela paz podemos nos comunicar...
PLAFT!
É isso. Agora ele me irritou. Me deu uma patada no tornozelo. Ninguém mexe no meu tornozelo.
- Seu cão sarnento! Some daqui! Ninguém toca no meu tornozelo!
- Ah é? E que tal isso? Plaft! E isso! Pof! E mais isso! Nhac!
AHHHHHHHHHHHH!!!
- Morder é sacanagem!
- Cada um usa as armas que tem.
- Ah é? Dois podem fazer esse jogo!
Nhac!
- Ei! Humanos não mordem!
- Ah!! Não mordem, é? E quem fez isso na minha perna?
- Ahn, bem... acho que você tem razão, vai.
- Eu sempre tenho.
- Vou embora então. Vou pra algum lugar em que alguém valorize um cão que fala.
- Vai mesmo. Vê se eu ligo.
- Tá bom.
- Tá bom.
Ele caminha para a porta. Eu nem ligo... ok, eu ligo. Tantos anos morando com o Fuligem... Sem contar que ninguém me visita. Só tinha ele de amigo, o cão. Eu realmente sou irritante, ele tem razão.
- Você vem visitar de vez em quando?
- Se você quiser, posso vir.
- Ah, deixa de frescura, fica aí, vai...
Sem ele, como eu ia poder paquerar a moça do poodle, do fim da rua?
- Mesmo?
- Sério, fica aí. Vamos voltar à vida normal.
- É, era bem tranqüilo. Mas você me dá uma comida decente?
- Sem problema. Nada de ração.
- Não, eu tava falando de ração mesmo.
- Ah, ok.
- É bom estar de volta.
- Fico feliz.
- Ah, só uma coisa.
- Fala.
- Posso usar o banheiro?
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