20.10.03

Bom dia, Paulistano



Acordar nessa cidade é sempre uma surpresa. A surpresa começa por mim, que nunca acordo no mesmo horário. Qualquer coisa entre 5 da manhã e uma da tarde.
O melhor é acordar muito cedo. O céu está sempre meio rosado. Pode ser lindo, mas é poluição. Bom, quem vive em São Paulo já se acostumou com isso há algum tempo. Ou comprou uma máscara de gás.

Mas não é só o céu do madrugador que é lindo. As ruas também estão lindas. Vazias, com o vento batendo nas árvores onde os passarinhos cantam. As calçadas estão limpas, sem as caquinhas de cachorros de madames que virão até o fim da tarde. As ruas, desertas, não têm nem sinal das centenas de carros a milhão que vão passar na hora do rush. E você sempre vai ouvir o radinho de pilha do vizinho sintonizado na musiquinha eterna do paulistano... "vambora, vambora, tá na hora, na hora, na hora!".

Agora, quem acorda no período matutino intermediário (aquele grupo felizardo composto de pessoas que moram perto do metrô ou perto do trabalho e crianças que estudam à tarde), entre 9 e 11 da manhã, ouve deliciosos sons da cidade. Crianças brincando no parquinho, a Lili chorando porque as outras meninas não deixam ela brincar na caixa de areia, caminhões levando a comida que abastece a metrópole, e anunciando melancias vermelhinhas, morangos de Atibaia e pamonhas de Piracicaba no último volume. Claro, tudo isso pode passar desapercebido para quem não é da cidade, mas quem tem o coração em São Paulo nota cada um desses pequenos detalhes.

Agora chega o último estágio da manhã, a hora do almoço. É meu horário de preferência. Não tenho tido muito o que fazer ultimamente, então, pra quê acordar cedo?
Ao meio-dia você acorda com o cheiro das panelas da vizinha, cozinhando o arroz com feijão e carne moída do paulistano. Você ouve a bagunça dos adolescentes voltando da escola, xingando o outro de idiota, tocando sua campainha e saindo correndo. Você ouve o papagaio que mora em alguma casa do quarteirão ao lado e vê, do conforto da sua janela, um guarda da CET aplicar multa num carro parado em fila dupla em frente à escolinha do bairro. Ah, os pequenos tesouros do cotidiano paulistano!
Ainda poderia falar de quem acorda no meio da tarde (pois trabalha de madrugada), de quem acorda de noite (principalmente as crianças em férias, que passaram a noite jogando videogame com os amigos e só acordam às cinco da tarde) e de todos os outros horários. Afinal, São Paulo não pára.
Mas, acho que já deu pra perceber: São Paulo é um inferno. Ou pode ser o céu. Como decidir?
Você não decide nada. Já ouviu falar em amor? A gente não escolhe quem ama e nem como ama. Quem ama São Paulo ama com todos os defeitos. E ama cegamente.

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